[avatar user=”rm1″ size=”thumbnail” align=”left”]Robeta Maia Gresta – é eleitoralista, professora e autora do blog “a Fala” e colaboradora do site Na Pauta Online.[/avatar]

Depois que um youtuber com milhões de seguidores escreveu que Mbappe “faria um belo arrastão” e desandou a perder patrocínios, não tardou que os defensores do “politicamente incorreto” pusessem em ação suas armas neutralizantes.

“Racismo onde? É uma piada sobre como ele é veloz.”

Claro. Uma “piada” que não teria sentido algum se o jogador fosse branco. Imaginem CR7 nela. Simplesmente não faz sentido. O que encaixa Mbappe na imagem do arrastão não é sua excepcional velocidade.

De criança, eu ouvia uma coisa de cortar o coração: “branco correndo é atleta; negro correndo é ladrão.” Se os 2 estão correndo, evidente que é a cor da pele que cola o rótulo em cada um.

O youtuber imbecil não fez mais que requentar essa frase babaca. E com requintes de crueldade, já que no caso fala de um atleta profissional, um fenômeno de talento e dedicação.

O idiota atrás do teclado, que ostenta sua omice branca como trunfo aniquilador (é o que lhe resta…), estava dizendo frente aos seus seguidores: “atleta onde? eu só vejo um ladrão. Seu lugar é o arrastão na praia.” E os seguidores riram.

É ainda mais preocupante que algo assim aconteça num país “miscigenado” como o Brasil, que dizima negros pobres por terem “a cara” da pobreza e por esta ser associada a “bandido”. Não qualquer um, mas aquele que “é bom morto”.

O moleque que desce o morro pra fazer arrastão é um triste clichê desse pacote de extermínio fundado em uma segregação racial tratada como fruto do acaso. Para muitos, o fato de não termos tido apartheid eximiria a responsabilidade coletiva pela predominância da pele negra no meio da pobreza, do presídio, do arrastão. Outros juram que não percebem a cor. Mas, invariavelmente, esses e aqueles tremem ao ver o menino negro pobre na praia “dos brancos”… o arrastão está no menino negro, mesmo quando o menino negro não está no arrastão.

Morrem negros, enquanto brancos riem na internet de piadas racistas e põem energia na defesa de seus ídolos (?), cujo mérito maior é “dizerem o que pensam”. Como se virtude fosse pregar racismo, machismo e homofobia enquanto as vítimas da violência que esses discursos encampam lutam pra sobreviver.

Promete-se ao menino negro da favela que ele pode mudar seu destino fatal. Pois não faz nem um mês que ecoa a perplexidade de Marcus Vinícius, uma criança assassinada pela polícia dizendo “mãe, eles não viram a roupa da escola?” e já está boa parte dos brasileiros em comoção ante o fato de um branco estúpido perder patrocínios por referendar, com seu humor nauseante, o “negro correndo é ladrão.”

O uniforme da escola não salva. Como o sonho máximo de ser uma super estrela do futebol não salva. Nada salva as pessoas negras do conforto que brancos encontram pra expressar racismo nessa cinicamente cordial sociedade brasileira.

Mas os tempos estão mudando. Os patrocínios retirados do dia pra noite falam a língua que importa aos racistas? Que bom então que esteja sendo dita.

Racistas, não passarão.

Passará o talento de Mbappe, veloz e eletrizante, pra inspirar crianças a se encherem de orgulho da cor da pele, da origem, da coragem.