[avatar user=”rm1″ size=”thumbnail” align=”left”]Robeta Maia Gresta – é eleitoralista, professora e autora do blog “a Fala”e colaboradora do site Na Pauta Online.[/avatar]

O facebook exclui dezenas de páginas e perfis de sua rede, ao fundamento de que compartilhavam notícias falsas de forma orquestrada, valendo-se de ferramentas ilícitas, inclusive para gerar a impressão, falsa, de multiplicidade de fontes.

O MBL afirma que seus líderes foram atingidos e que tudo não passa de uma conspiração esquerdista. Liberais, indignados que estão com o empresário que resolveu tocar seu negócio conforme suas próprias regras (curioso, não?), soltaram uma “nota sobre a censura do facebook”. lDesinformação que nada – bradou o grupo -, as páginas excluídas é que “exerciam o importante papel de denunciar as ‘fake news’ da grande mídia brasileira”.

Mas aí, porque o hábito faz o monge, o grupo, pra pintar bem seu vilão, não resistiu a uma, digamos, sonora lorota. Disse que “o viés político e ideológico” do facebook “tem sido alvo de atenção internacional”, em função das perseguições a “líderes de direita ao redor do mundo”. E garantiu: “No dia 10/04/2018, Mark Zuckerberg deu um significativo depoimento no Senado americano, no qual lhe fora questionado esse viés de esquerda”.

A narrativa é delirante.

O fato notório, de simplíssima checagem, é que Zuckerberg foi chamado para prestar esclarecimentos sobre a segurança dos dados dos usuários do facebook, violada pela Cambridge Analytica e usados, de forma para muitos determinante, na eleição americana.

Então, não, Zuckerberg não foi inquirido como comandante de uma cruzada anti-direita, mas como empresário relapso em prover o serviço prometido a seus clientes.

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/04/em-depoimento-de-zuckerberg-senadores-questionam-modelo-do-facebook.shtml

A eleição americana, sabemos também, foi vencida por Donald Trump. Que pode ser muita coisa, menos um cara de esquerda. E o escândalo está, justamente, em que os dados capturados pela Cambridge Analytica ajudaram Trump a se eleger.

Logo, quem quisesse babar impropérios minimamente factíveis a respeito dos malfeitos do dono do facebook, teria que partir de “Zuckerberg elegeu um presidente de ultra-direita” e não “Zuckerberg persegue líderes de direita”.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/03/como-o-facebook-ajudou-trump-a-encontrar-seus-eleitores.shtml

Ah, mas sempre tem ela. A “opinião”.

Quando os fatos não batem, os defensores da liberdade de manipulação (eles chamam de “expressão”) disparam: “é a minha opinião”. A “opinião” do MBL seria, então, que Trump é de esquerda? E Hillary, a líder de direita perseguida por Zuckerberg?

Bem, lá em 2016, quando Trump se elegeu, a “opinião” de Kim Kataguiri, líder do MBL, sobre o eleito era a seguinte: “Com Hillary seria pior. Ele tem defeitos, mas em termos de política econômica, pelo menos, não propõe coisas como taxar grandes fortunas. […] A maior qualidade do Trump é não ser a Hillary.”

Nada parecido com algo que Kim costuma dizer sobre “esquerdistas”, não é mesmo?

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-37917248

É claro que a saída infantilóide a que os MBListas estão acostumados é negar o óbvio. Jogar com a irrazoabilidade em looping infinito, estratégia hoje sintetizada no jargão “fake news da grande mídia”.

Não importa quão simples seja a checagem dos fatos, como é o caso da que fiz aqui. Narrarão uma fantasia ignorando o vídeo do depoimento de Zuckerberg no Senado. Irão se recusar ao esforço intelectivo de comparar as ideias de Trump e as suas próprias num espectro político. Não duvido nem mesmo que neguem que Kataguiri deu a entrevista à BBC.

Ok, o teclado aceita tudo.

Resta saber até que ponto os seguidores do MBL farão o mesmo.