[avatar user=”rm1″ size=”thumbnail” align=”left”]Robeta Maia Gresta – é eleitoralista, professora e autora do blog “a Fala”e colaboradora do site Na Pauta Online.[/avatar]

Desde a tarde de quinta (6), véspera do feriado de Independência do Brasil, o país entrou em nova convulsão social. Bolsonaro foi agredido com uma facada em ato de campanha na cidade de Juiz de Fora. Em meio à desinformação generalizada – que não impediu nem grupos de WhatsApp, nem a mídia, de divulgar seus “furos” – cresceu o sentimento de que a própria “democracia” fora golpeada.

Até agora o que se indica é que o agressor de Bolsonaro sofre de transtorno mental e disse que seguiu uma ordem de Deus. Um crime, decerto, mas aleatório, imprevisível, expressão de uma mente confusa. Do tipo que se passou com o Papa João Paulo II.

Não é algo que se deseja a alguém. E, claro, a comoção se agrava porque a vítima é um candidato à presidência. Mas também não é algo que se equipara à execução da vereadora Marielle, um crime de emboscada executado com balas de fuzil da polícia. Se sentimos o impacto da facada em Bolsonaro na democracia, não é porque esta era o alvo, mas porque o esgarçamento da institucionalidade chegou a um ponto que, sabemos, não há mais amarras que assegurem que da comoção não se passará ao caos.

Da cama do hospital, Bolsonaro fala em maldade do ser humano e diz que nunca fez mal pra ninguém. Ele está fragilizado, respeito o momento. Mas não acho que é por isso que essa frase saiu assim.

A frase diz muito sobre a forma de Bolsonaro ver o mundo, dividido entre pessoas que carregam o mal e pessoas que carregam o bem. Seus próprios atos, porque de antemão se reconhece como “homem de bem”, são moralmente corretos. Seu agressor é um “homem do mal” não pelo ato em si, mas por voltá-lo contra um homem de bem. Vejam, então, que não eram maus aos olhos de Bolsonaro os homens que atiraram no ônibus da caravana de um pré-candidato adversário, tanto que o fato valeu uma brincadeira.

Diante do ocorrido, se torna mais importante haver espaço para discutir o papel do ódio como força de uma mobilização política, que, hoje, tem em Bolsonaro uma liderança. Porém, não está fácil encontrar esses espaços.

Em menos de 24 horas, o bolsonarismo não apenas absorveu o atentado como elemento que reforça a ideia supra moral do “homem de bem” como também o faz sem resistência crítica, substituída que foi por disclaimers do tipo “eu não endosso a violência nem mesmo contra Bolsonaro”.

Ok, não endossamos violência. Por isso mesmo não devemos deixar que se crie um tabu em torno da violência que Bolsonaro dissemina ao ofender com brutalidade mulheres, negros e gays, ao exaltar tortura e torturadores, ao flertar com fantasias de extermínio – como fez recentemente ao falar em metralhar pessoas (sim, pessoas).

O candidato foi vítima de uma violência aleatória, mas possivelmente fluirá com seus seguidores: não partirá para um discurso anti-violência; apenas incrementará a justificativa para seu agir violento. O contraponto é indispensável.

É preciso ter em perspectiva que a crítica à violência, sempre necessária, segue sendo possível. Não se pode cair na armadilha da “boa etiqueta” ou ceder ao medo de ser acusado de “fascista”. Não se estará a tripudiar da vítima ou do trauma que agora enfrenta. Sua dor é respeitada, mas não o exime da responsabilidade pelas agressões que pratica, aplaude e estimula e que são base de sua identidade política.

Sugerir que o candidato e seus apoiadores façam a autocrítica do discurso de ódio não é comemorar o ocorrido. É promover uma reflexão necessária quanto à ausência de controle sobre a violência que alimentam.

Cogitar do que ocorreria num contexto de armamento livre da população, ou apontar que armas não impediram o ataque não é usar de sarcasmo. É é expor a falácia da proposta de segurança pública que é carro-chefe do candidato.

Em resposta ao ódio, a empatia também precisa ser força de mobilização política. Não a limitemos às condolências a Bolsonaro.