Por José Carlos Pereira (Portugal)

Estou muito apreensivo com a situação política no Brasil, tanto mais porque tenho lá amigos brasileiros como irmãos de sangue. Acredito que a democracia vencerá na segunda volta das eleições, mas, depois de ver estas imagens, reconheço que agora nenhum brasileiro pode estar descansado. O vídeo mostra-nos uma realidade assustadora. Militares do Exército brasileiro participam numa corrida em manifestação de apoio a Jair Bolsonaro, o que, já por si, é muito grave, muito grave mesmo, porque os militares e agentes policiais não devem – não podem! – manifestar publicamente as suas posições políticas.

Gosto de recorrer à História como mestra da verdade. Ao ver estas imagens, ocorreu-me o célebre juramento de bandeira no RALIS, em Portugal, em 1975, em que os soldados, militarmente bem disciplinados, reproduziam as palavras de ordem vindas dos chefes, que gritavam estar ao lado da revolução. Eu tinha 13 anos de idade, ouvia-se à boca cheia que o país estava à beira da guerra civil. Na minha opinião, estas imagens pró-Bolsonaro são ainda mais graves do que as do RALIS, porque há uma adesão espontânea como provável embrião para a formação de grupos de milicianos paralelos às funções que desempenham no Estado.

Ontem uma investigadora de S. Paulo dizia que, com ou sem a vitória do candidato da extrema-direita, já está instalada a bolsonarização na vida política e social do Brasil, o que constitui um grande perigo. Um partido de extrema-direita com mais de 10% num país democrático já é um fator de grande perturbação. E a realidade é que, com Bolsonaro ou não no poder, deste grupo de militares que vemos nas imagens muita coisa pode surgir, com o falacioso argumento da ordem e da segurança. Fogo que combate fogo lança qualquer país no abismo.

Nenhum povo se deu bem com isso. Vislumbram-se muito perigosas as noites destas eleições brasileiras – a do próximo domingo e, pior ainda, a do segundo turno, principalmente quando for conhecido o vencedor. Se Bolsonaro for eleito, poderá dar-se o revanchismo contra os que não o apoiam; se não vencer, poderá ocorrer a vingança pela frustração. As piores ditaduras não são as que resultam de golpes de Estado mas aquelas que o povo elege. Nestas os “oitavos de chefe” são os primeiros a praticar a repressão, ainda o chefe não deu ordens para tal. E é nestes contextos que se dão as guerras civis.

Este não é um texto catastrofista, mas de alerta e de esperança. Tenho fé! Não acredito na vitória de Bolsonaro na segunda volta. Deus proteja o Brasil!