[avatar user=”jc1″ size=”thumbnail” align=”left”]José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online.[/avatar]

Correspondendo ao honroso convite do senhor diretor do jornal “Na Pauta Online”, Fabrício Magalhães, hoje dou início a uma coluna com crônicas quinzenais intitulada de  “Crônicas transatlânticas”.

Com esta colaboração, estendo o meu abraço português aos meus irmãos desse país tão maravilhoso, de gente muito bonita, que traz implicitamente na alma a poesia, a música, a alegria, a beleza corporal, as cores miraculosas das suas expressões místicas. Brasil, onde nasceram e vivem amigos meus de coração como irmãos de sangue – de Brasília, de S. Paulo, do Rio de Janeiro e de outras partes dessa nação que tanto me comove, que tanto amo e pela qual tanto sofro.

Oh, Brasil, onde viveram os grandes pensadores portugueses padre António Vieira e Agostinho da Silva!… Oh, Brasil, de Carlos Drummond de Andrade, de Jorge Amado, de Vinicius de Moraes, de Nara Leão e de Elis Regina!… Oh, Brasil, de Chico Buarque e de Caetano Veloso!…  Oh, Brasil, de Oscar Niemeyer, de Pelé, de João Saldanha (o João Sem-Medo) e do português Alípio de Freitas!… Oh, Brasil, de Paulo Freire, de D. Paulo Evaristo Arns e de D. Hélder Câmara!… Oh, Brasil, dos mártires Frei Tito Alencar Lima, Vladimir Herzog, Santo Dias da Silva, Alexandre Vannucchi Leme, Zuleika de Souza Netto, Maurina Borges da Silveira, Chico Mendes e Marielle Franco!…  Oh, Brasil, dos mil carnavais com alguma mistura com o fado português!…

Todo este Brasil, com 26 estados, com mais de 200 milhões de habitantes e cerca de 150 milhões de eleitores, é um misto de muitas grandezas com reconhecidas fragilidades, uma nação de muitas paixões e de determinadas assimetrias, que, no passado dia 28 de outubro, me deu um dos maiores desgostos na minha vida…

Tendo nascido em 1962 e tendo ocorrido a Revolução dos Cravos em 1974, em Portugal, cresci naturalmente com a democracia portuguesa, tendo-se tornado inevitável  o meu interesse pela política desde a minha adolescência. Interesse pela política enquanto portadora de valores, de liberdade, de fraternidade e de equidade social. Não obstante ter sido inevitável o meu envolvimento emocional com militantes partidários, cresci vivendo os acontecimentos da história de Portugal do pós-25 de Abril com independência face aos partidos e seus satélites. Não deixei de participar, mesmo com relativismo, em campanhas eleitorais que eu entendia serem úteis para a escolha do governo do meu país na altura própria. Nem sempre em relação ao mesmo partido e candidatos – o tempo relativiza.

Sou fiel à ética republicana e democrática, aos princípios de humanismo, de civilização e aos direitos humanos. Preocupo-me bastante quando ocorrem casos que atentam a equidade social, pugno pelo Serviço Nacional de Saúde, sendo Portugal, neste capítulo, um dos melhores exemplos do mundo – sem dúvida, a grande obra do 25 de Abril.

Ainda antes dos meus 17 anos de idade, antes da anistia aos presos políticos brasileiros em 1979, já me via envolvido em petições internacionais contra a violação dos direitos humanos no país-irmão, na distribuição de publicações feitas mas proibidas no Brasil. A propaganda a partir de Portugal era algo solitária, ocorreu com maior intensidade em 1982 junto dos brasileiros que se deslocaram a Espanha para assistir à Copa do Mundo de Futebol, onde a seleção canarinha foi derrota pela Itália, na semifinal, por 3-2 – o transalpino Paolo Rossi desfez o sonho brasileiro com o implacável hat-trick..

Nessa altura, a seleção portuguesa raramente participava nos jogos da Copa, de maneira que a minha preferência ia para a formação verde-amarelo.  Acredito que a conquista da Copa de 70 terá consolidado o poder ditatorial, associada  à propaganda do falacioso “milagre econômico” (falacioso, porque foi à custa de enormes sacrifícios das classes mais desfavorecias), mas não posso inferir se a derrota de 82 prejudicou o ânimo dos opressores – só os sociólogos  poderão afirmar.  No entanto, pode-se reconhecer que o Brasil dos inícios da década de 80 se encontrava na primavera de um mundo novo, de libertação, mas demorou – oficialmente, a ditadura terminou em 85, mas a Constituição só foi aprovada em 88 e as primeiras eleições livres ocorreram em 89.

Na minha humilde opinião, a demora para a democratização brasileira prendeu-se muito com os caprichos da administração belicista Ronald Reagan (1981-1989). Também na minha humilde opinião, a felicidade da democracia em Portugal teve que ver com o facto de a revolução ter ocorrido em 1974 e a sua consolidação verificar-se no período da administração Jimmy Carter (1977-1981).  Infelizmente, Carter frustrou a eleição para um segundo mandato, a favor de Reagan. Este não deixou de ter o Brasil e outros países latino-americanos sob  o domínio geoestratégico do seu país, sem qualquer pudor em relação às ditaduras na casa dos outros – os norte-americanos são assim: ditadura na casa dos outros para sobrevivência da nossa democracia (da deles). Foi um azar para o Brasil, que só foi sanado em 89…  Mas antes disso,  em 1986, não deixou de ser surpreendente um dos fatos ocorridos no encontro de José Sarney com João Paulo II. O papa, no final desse encontro, disse aos jornalistas: “A reforma agrária no Brasil não pode fracassar, porque é um problema de justiça social”. Claro que estas palavras incentivaram a dinâmica do movimento dos sem-terra, ancestralmente injustiçados no domínio do espaço rural.

Todos sabemos que João Paulo II sempre se pautou por um rigoroso conservadorismo a nível da teologia católica e dos costumes da sociedade, mas, por outro lado, é também reconhecido como personagem de uma grande visão de justiça social, muito avançada, muito próxima da esquerda que por vezes muitos clérigos se demarcam, nada condizente com o neoliberalismo, que tem sido muleta de certos fascismos.

A afirmação do pontífice terá tido que ver com a crescente consciencialização da Igreja Católica sobre graves problemas da sociedade brasileira, onde na altura, a bem dizer, nem sequer havia classe média. Não obstante João Paulo II ter afrontado publicamente certos movimentos progressistas da Igreja brasileira, não foi surdo nem cego de todo em relação aos apelos desses movimentos.

Diz-se que João Paulo II, na sua viagem apostólica ao Alasca, a 2 de maio de 1984, teria pedido a Ronald Reagan, em encontro privado, apoio para o seu país natal, a Polônia. Em troca, o presidente dos EUA teria recomendado uma atitude firme contra a Teologia da Libertação, o que veio a acontecer, de fato, no ano seguinte, principalmente com a suspensão de Leonardo Boff, autor do livro “Igreja: Carisma e Poder”.  Wojtyła e Reagan eram dois anticomunistas convictos, mas não eram iguais no aspecto de filosofia social. De maneira alguma!

A 8 de novembro de 2016, ocorre  novo azar para o Brasil: o mundo é surpreendido com a eleição de Donald Trump para presidente dos EUA. Em consequência disso, emerge então uma nova postura geoestratégica da administração norte-americana para a América Latina. Trump pode não ser fascista, mas é já, sem dúvida, o pai de vários fascismos que se desenham no mundo, a começar pelo Brasil.

1º de Janeiro será o dia da tomada de posse de Jair Bolsonaro, mas um novo regime já começou. Tenho conhecimento de brasileiros que choram todos os dias, porque receiam ou já sentem a violência e outros atos de perseguição. Muitas delas nunca tiveram qualquer participação partidária – e as que têm ou tiveram têm todo o direito. Um regime não imposto por golpe de Estado, mas votado livremente pela maioria do povo, o que torna o quadro mais dramático. O poder já não precisa de recrutar os seus seguidores, já os tem por natureza, pois já começaram a antecipar-se às ordens do chefe. O mestre de capoeira, compositor e dançarino baiano Romualdo Rosário da Costa, mais conhecido por Moa do Katendê é assassinado no dia das eleições do primeiro turno com 12 facadas por apoiantes de Bolsonaro; transexuais são agredidos e mortos; um professor da Universidade de Brasília é expulso pelos próprios alunos; é pedida a retirada de Fernando Haddad do ensino; jornais são ameaçados de retirada de apoio oficial, há constantes manifestações políticas por parte de militares e polícias; seitas evangélicas têm, também, os seus esquadrões; membros da temível organização racista Klu Klux Klan estão já a caminho do Brasil para dar apoio aos seguidores do novo presidente. Perante tudo isto, Jair Bolsonaro diz que não consegue controlar os seus apaniguados, mas não condena os atos abomináveis por eles cometidos.

Mais do que cúmplice, Bolsonaro é o pedagogo da violência. Mesmo depois de ter vencido as eleições, não baixou a bandeira da propaganda. Podem crer que quando isso acontece, isso é fatal para o próprio. Quem vive eternamente em campanha eleitoral tem os dias contados. Há coisas que não se dizem em campanha eleitoral, muito menos depois de uma vitória eleitoral. E Bolsonaro disse e continua a dizer muitas barbaridades, que ferem a dignidade da pessoa humana. Invoca o nome de Deus em vão, o que é uma blasfêmia.

Não faço futurologia política, mas prevejo que o novo presidente do Brasil não irá terminar o mandato. Prometeu ser um justiceiro vingativo, mas terá contra si pessoas de muito valor intelectual e humanista, desde marxistas às áreas da social-democracia e à direita democrática, passando por membros destacados da Igreja Católica –  quantas vezes profética na América Latina!

Bolsonaro irá reprimir muitas das liberdades e vontades da população, mas não conseguirá impor tudo. Aprendi nas universidades que totalitarismo não é Absolutismo, daí haver espaços de ação para se fazer a síntese à tese do opressor. Bolsonaro, um capitão reformado, que terá militares no seu governo – com principal destaque para o general Mourão –, será confrontado por estes face à incapacidade de se impor na altura crucial… Qual o general que gosta de ser mandado por um capitão ou por um outro subalterno da hierarquia castrense?…

E, agora, meus caros leitores, peço-vos que concluam esta crônica.