Obra contempla seus 53 anos de carreira, desde os primeiros passos, em Usina Barcelos, em Campos do Goytacazes, até os mais recentes trabalhos

*Por Ana Clara Brant site uai

Durante anos, achava-se que Tigresa, de Caetano Veloso, havia sido feita para a atriz Sonia Braga. Só recentemente se soube quem era a musa inspiradora dos versos Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel/Uma mulher, uma beleza que me aconteceu/Esfregando a pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu: Zezé Motta. A confusão se deu porque a canção foi tema da personagem de Sonia na novela Espelho mágico (1977). “A revelação veio em 2015, na coluna do Nelson Motta, em O Globo. Quando Caetano fez Tigresa, Zezé tinha um visual meio andrógino, meio pantera e usava as unhas pretas. Ela sempre foi fã dele e ficou super emocionada com a novidade”. Quem relata essa história é o escritor, dramaturgo e ator Cacau Hygino, que acaba de lançar a biografa Zezé Motta – Um canto de luta e resistência (Companhia Editora Nacional).

O livro aborda, entre outros temas, a amizade com Marieta Severo, que surgiu quando as duas ainda eram crianças e foram vizinhas de prédio; a negação da cor e dos cabelos quando jovem (Zezé chegou a usar peruca com corte chanel durante um bom tempo); as suas duas datas de nascimento (a artista nasceu no dia 27 de junho, mas seus pais só puderam registrá-la em 5 de setembro e, por isso, ela passou a comemorar o aniversário duas vezes) e o fato de morar no lendário apartamento do Leme que pertenceu à escritora Clarice Lispector. “Contei muita informação já conhecida, mas quis priorizar as novidades, os aspectos mais interessantes e curiosos, para sair dessa coisa da biografia convencional, senão ficaria chato”, diz o autor.

Num incidente com um barco durante as filmagens de Xica da Silva (1976), Zezé quase se afogou. Episódio é relatado na biografia (foto: TERRA FILMES/DIVULGAÇÃO)

Biografar gente famosa não é novidade para Cacau Hygino. Ele é autor das biografias da ex-jogadora de vôlei Virna e da atriz Nathália Timberg, que protagoniza o mais recente texto teatral de Hygino, Através da Iris, uma homenagem à fashionista norte-americana Iris Apfel. Hygino organizou também a fotobiografia de Irene Ravache. Foi em parceria com uma fotógrafa, Vera Donato, que ele ingressou no mercado literário, com Mulheres fora de cena. O livro traz relatos de 165 personalidades sobre o que gostam de fazer em seu tempo livre. “O interessante é que fiz muitos trabalhos com mulheres, porque minha vida toda é cercada por elas. Sempre é um desafio fazer uma biografia, ainda mais de figuras tão fortes. Acho que gostam da maneira que escrevo, que é simples, direta. Elas me contam o que querem contar, mas sempre pergunto se têm certeza, porque não quero parecer sensacionalista e causar problemas futuramente. Quando vejo que uma revelação pode constranger quem quer que seja, como o relacionamento com alguém no passado que hoje está casado, eu as faço refletir. Mas a escolha é da atriz, a história é dela”, afirma o escritor. Atualmente ele está se debruçando sobre a trajetória de Nicette Bruno.

O autor Cacau Hygino e sua biografada Zezé Motta (foto: Companhia Editora Nacional)

O volume sobre Zezé Motta contempla seus 53 anos de carreira, desde os primeiros passos, em Usina Barcelos, em Campos do Goytacazes, no norte fluminense, passando pela estreia profissional em 1968, na icônica peça Roda viva, de Chico Buarque, até os mais recentes trabalhos. “Acho que só não saiu o último disco dela, de samba. Procurei colocar tudo, tanto os projetos profissionais quanto os pessoais. Uma coisa que sempre me impressionou foi o fato de, apesar de o mercado ser tão cruel com o artista negro, Zezé nunca ter deixado de trabalhar, atuando ou cantando. É uma mulher extremamente bem-sucedida”, diz.

Há tempos o autor admirava a fibra e o talento da atriz, hoje com 74 anos. A relação dos dois se estreitou em 1998 quando fizeram um musical juntos, Ó Abre alas, de Maria Adelaide Amaral, sobre a compositora Chiquinha Gonzaga. Cacau interpretou o irmão de Chiquinha, e Zezé era a mãe dele e da musicista.

XICA DA SILVA

Na biografia, a personagem mais marcante de Zezé, Xica da Silva, merece capítulos especiais, que abordam não só como se deu a escolha da atriz para interpretar a escrava que virou rainha, mas também o processo de filmagens e episódios dos bastidores, como o naufrágio de um barco que quase resultou no afogamento da atriz. Na história, Xica queria conhecer o mar, e então o contratador de diamantes constrói um navio e uma represa de presente para a amada.

“Na cena, Xica da Silva reclama que, se o mar era aquela pasmaceira, ela estava achando tudo muito chato. Aí um personagem solta: ‘Se ao menos estivéssemos num naufrágio’. Foi dito e feito”, relata Cacau. Sem que a produção se desse conta, o barco cenográfico não aguentou tanto peso e virou. “Zezé caiu dentro d’água, afundou, mas o figurino a ajudou, porque tinha anáguas de arames que a fizeram flutuar. Mesmo assim, ela bebeu muita água. Quem a salvou foi o (diretor) Cacá Diegues e o Beto Leão, cenógrafo e namorado dela na época. Foi um susto”, conta o biógrafo.

Mas foram os bons momentos do longa-metragem que prevaleceram na memória, como o entrosamento entre o elenco e o restante da equipe, a integração com a população de Diamantina, onde a produção foi rodada, e o sucesso do longa, que levou a carreira de Zezé Motta a um outro patamar e a projetou internacionalmente. “Foi um divisor de águas. Até hoje, mesmo com tantos trabalhos marcantes e mais de 40 anos depois, Zezé ainda é chamada de Xica”, diz Hygino. Além das atuações no cinema, Zezé Motta tem no currículo 35 novelas (incluindo a produção portuguesa Ouro verde, ganhadora do Emmy de melhor novela de 2017) e 14 discos.

Zezé Motta – Um canto de luta e resistência trata também da relação da atriz e cantora com seus oito filhos adotivos e relata suas gestações perdidas. A relação com a mãe, dona Maria Elazy Motta, nonagenária que faz questão de acompanhar os passos da filha, e com o pai de criação, o músico Luiz Oliveira, fundamental para a transformação dela em uma grande artista, também é descrita no livro.

Cacau Hygino dedica o livro aos pais de Zezé e ao artista negro brasileiro. No trecho final, a publicação traz uma série de depoimentos de pessoas próximas à biografada e depoimentos da própria Zezé sobre assuntos como a velhice, o sexo, sua transformação em símbolo sexual, as manias e o racismo.

A luta e a resistência mencionadas no subtítulo são enfocadas ressaltando o modo particular de Zezé Motta exercer seu ativismo. “Ela sempre foi uma mulher que brigou não só pelos direitos do negro, como também os das mulheres e os da classe artística. E fez isso de uma forma muito natural, espontânea. Ela sabe que existe racismo, discriminação, mas nunca ficou se martirizando e vitimizando. Zezé Motta é uma estrela e um exemplo em todos os aspectos”, afirma Cacau Hygino.

  • Zezé Motta – Um canto e luta e resistência
  • Cacau Hygino
  • Companhia Editora Nacional
  • 256 páginas
  • R$ 39,90

*Transcrito do site uai