[avatar user=”jc1″ size=”thumbnail” align=”left”]José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online – PT[/avatar]

Escrevo-vos fora do meu espaço habitual. Encontro-me de férias, nesta quadra natalícia, a recuperar energias para um novo ano.

Mesmo assim, não quis interromper a minha crônica quinzenal neste jornal, não obstante fazê-la hoje com menos profundidade na reflexão e na escrita que vos acostumei. Porque, para minha felicidade, esta coluna é já um ponto de encontro entre portugueses e brasileiros, que eu amo e bendigo, pessoas de boa vontade, humanistas, preocupadas com o presente e o futuro da humanidade, atentas aos valores conquistados ao longo dos séculos e milênios – na linha da dialética da História. Valores, como a democracia e os direitos humanos.

Nesta minha “molenguice” de férias, sou breve nas palavras, mas não estou ausente. Estou com todos os irmãos e irmãs do Brasil, imenso nos desejos para 2019, fazendo votos sinceros para que o recém-eleito presidente da República, Jair Bolsonaro (que vai tomar posse na terça-feira, dia 1 de janeiro), não concretize nenhuma das promessas/ameaças que fez durante a campanha eleitoral. Todas as suas promessas foram e são ameaças à democracia e aos direitos humanos, palavras e propósitos de natureza violenta, com a ideia impregnada para a criação de um Estado ditatorial.

Mais do que prendas ou bonitas palavras de circunstância, os meus votos para o povo brasileiro são de paz, de amor, de liberdade, pão, trabalho, saúde, habitação e dignidade humana. Perante o quadro negro que se avizinha, há o risco de os lobos voltarem e amedrontarem milhões e milhões de brasileiros e as cores desse país maravilhoso perderem a sua mágica tonalidade.

Nesta quadra de Natal, na minha reflexão sobre o Brasil, regresso com uma certa angústia ao Natal de 1990. Apesar de se tratar de ocasiões e fatos políticos nada semelhantes, recordo o espírito (triste) que então se vivia no mundo. Decorria a Guerra do Golfo, a primeira invasão do Iraque, que se deu entre 2 de agosto daquele ano e 28 de fevereiro do ano seguinte. Temia-se a expansão do conflito por vários continentes.

Foi nesse Natal, o de 1990 – ensombrado pela guerra –, que rebusquei nos meus arquivos pessoais “Uma carta triste para o menino Jesus”. Um poema que tinha escrito por volta dos meus 14 anos de idade, também numa altura em que se via pela TV acontecimentos de guerra pelo mundo – os tremendos crimes sobre os mais fracos, que vêm dos primórdios da existência! Peguei naquele poema tão primário e inocente, algo infantil, mas com sentimentos e vontade de mudar alguma coisa – o sonho e a utopia, naqueles versos alexandrinos (com 12 sílabas métricas). Li, reli várias vezes e aperfeiçoei o texto, mas a inocência e a infantilidade mantiveram-se. Era um manuscrito já amarelado pelo tempo, passeio-o no computador e, mais tarde, publiquei-o em livro.

Passados 28 anos, neste Natal, numa altura em que se vislumbra uma situação política muito difícil para o Brasil, republico aqui o poema, mostrando a minha tristeza, mas também a minha inocência de menino perante o mundo tão feroz, a minha esperança e solidariedade para com todos vós – meus amados irmãos e irmãs do Brasil.

Há dias prometi a uma missionária católica noviça do Brasil (que abraçou o seu ideal de amor ao próximo junto dos mais indefesos) que jamais abdicarei da minha luta, do meu empenho constante por um Brasil livre de quaisquer tentações totalitárias. Sei que sou uma gota no emaranhado da questão, mas sou também resistência, porque já vos ferem a existência. A jovem missionária teme os efeitos políticos de Jair Bolsonaro no país. Também ela, com a sua proximidade com os mais pobres, é resistência. Uma resistência prática, mostrando que todo o ideal tem de ser concretizado não em palavras mas com testemunho autêntico. Agradeceu-me o juramento. Já foi em missão.

Não sou proselitista. Disso falarei na minha próxima crónica. Respeito todas as crenças quanto à religião e à política – crentes, ateus ou agnósticos, marxistas, liberais, social-democratas, etc, etc. Acho que o fundamental é o testemunho positivo de cada um.

Quero em 2019 renovar a minha amizade com todos vós, com todas as pessoas de boa vontade, sinceras no propósito generoso de humanizarmos as estruturas e o pensamento do mundo, para uma sociedade melhor e feliz.

Eis, então, “Uma carta triste para o menino Jesus”

Cai a neve, tão fria no meu coração,

Neste Natal … Oh! meu amigo, quem me dera

Ter-te comigo e cantar aquela canção

Onde outrora cabia a paz e nunca a guerra.

Oh! quem me dera no meu tempo de criança

À luz da festa nos presépios que fazia.

E o meu riso com os outros era uma dança,

Era a dança dos homens em sua harmonia.

Mas o tempo passado é o tempo perdido,

Tempo de sonhos que pelo mundo andei

A cantar tão alegre o meu sonho vencido:

Um presépio de guerra que agora encontrei!

E as lágrimas que deixo correrem no rosto

São as luzes que acendo, tão triste em dezembro,

No meu presépio de maio, junho ou agosto,

No meu presépio feito para todo o tempo.

Para todo o tempo, ó meu amigo de sempre,

As aves do céu à tua volta serão

Mensageiras da paz, a caminho da gente,

Com cânticos soando no meu coração!