O Presidente dos EUA, Donald Trump, disse numa conferência de imprensa conjunta com a primeira-ministra demissionária do Reino Unido, Theresa May, que a sua homóloga britânica “merece todo o reconhecimento” nas negociações do Brexit, apesar de apoiar alguns dos principais rivais da líder conservadora e de ter criticado anteriormente o seu desempenho nas conversações com Bruxelas.

“De certa forma, ela tem tudo pronto e preparado”, disse Donald Trump, sobre o acordo que Theresa May obteve junto de Bruxelas e que foi chumbado três vezes na Câmara dos Comuns, levando à sua demissão. “Acho que não lhe vão dar todo o valor que merece, mas penso que merece todo o reconhecimento. Penso mesmo”, disse o Presidente Donald Trump, dirigindo-se à sua homóloga britânica. Recorde-se que em julho de 2018, nas vésperas de Thresa May ter chegado ao atual acordo, Donald Trump disse ao The Sun que aquilo “não foi o que as pessoas votaram”.

À altura, Theresa May contou à BBC que Donald Trump lhe tinha dito em privado que devia “processar a União Europeia”. Ora, na conferência de imprensa que marcou o segundo dia da visita de Estado de Donald Trump ao Reino Unido, a primeira-ministra britânica recordou, em tom de graça, essa sugestão do líder norte-americano. “Recordo-me que o Presidente sugeriu que eu processasse a UE, coisa que nós não fizemos. Em vez disso, fomos para as negociações e saímos de lá com um bom acordo”, disse Theresa May. Em resposta, também em jeito de graça, Donald Trump esboçou um “sim…” e depois completou: “Eu tinha-os processado, mas tudo bem. Teria colocado um processo e depois chegava a um acordo, talvez. Mas nunca se sabe. Provavelmente ela é uma melhor negociadora do que eu”.

No final da conferência de imprensa, Donald Trump foi ainda chamado a falar sobre Boris Johnson, um dos principais candidatos a preencher a vaga de Theresa May a 7 de junho, data em que a sua demissão tem efeito. Donald Trump repetiu aquilo que já tinha dito momentos antes de partir para o Reino Unido: “Conheço o Boris, gosto dele, gosto dele há muito tempo. Faria um bom trabalho”. Depois, alargou o elogio a Jeremy Hunt, ministro dos Negócios Estrangeiros e também candidato a liderar o governo depois de Theresa May. “Conheço o Jeremy, acho que ele faria um bom trabalho”, disse. E ainda falou de Michael Gove, também ministro neste governo e possível sucessor de Theresa Mya. “Não conheço o Michael…”, disse. E, em jeito de piada, perguntou a Jeremy Hunt: “Será que ele faria um bom trabalho, Jeremy? Diz-me…”.

Todas estas afirmações tomaram lugar na segunda parte da conferência de imprensa, onde foi dada a oportunidade a alguns jornalistas para colocarem perguntas aos dois líderes. Na primeira parte, cada um deles discursou sobre a aliança entre os dois países. Nesta fase, ambos os líderes tocaram ao de leve no tema do acordo de comércio que os EUA e o Reino Unido estão a preparar para quando acontecer o Brexit.

“Na primeira vez que nos encontrámos, concordámos que íamos chegar a um acordo de comércio livre ambicioso para quando o Reino Unido saísse da UE. E, pelas nossas conversas positivas de hoje, sei que continuamos os dois comprometidos com isso”, disse Theresa May. Donald Trump, que na primeira parte da conferência de imprensa abriu mão do seu estilo mais aberto e preferiu ler de um papel, disse que os dois países estão perto de chegar a um “acordo comercial fenomenal”. “Diria que será duas ou até três vezes maior do que aquilo que temos agora, tem um potencial tremendo”, completou.

Theresa May falou também de uma “relação especial entre o Reino Unido e os EUA e referiu o episódio que quase resultou na morte do ex-espião russo, Sergei Skripal, com o agente nervotóxico de fabrico russo, Novichok, em pleno solo britânico. “Quando a Rússia utilizou um gás nervotóxico nas ruas do nosso país, a par da expulsão do Reino Unido, o Presidente [dos EUA] expulsou 60 agentes dos serviços de informação russos, a maior contribuição perante uma resposta global sem precedentes”, disse.

Ainda assim, a primeira-ministra britânica não se coibiu de sublinhar também alguns dos desentendimentos em matéria de política externa que o seu governo e a administração de Donald Trump têm tido. Um deles, tem a ver com as alterações climáticas e o Acordo de Paris, do qual os EUA saíram. Outro, sobre o qual Theresa May falou em maior detalhe, diz respeito ao Acordo Nuclear com o Irão, do qual os EUA também saíram unilateralmente e do qual o Reino Unido é signatário.

“Sempre falei abertamente contigo, Donald, nas vezes em que discordamos e tu fizeste o mesmo comigo”, disse. Mais à frente, concretizou, referindo que é um objetivo comum que o Irão não tenha a capacidade de desenvolver armas nucleares: “Embora discordemos dos meios para chegar a esse fim, o Reino Unido continua a defender o acordo nuclear. É claro que cada um de nós tem o mesmo fim. É importante que o Irão cumpra as suas obrigações e que nós façamos tudo para evitar uma escalada, que não é do interesse de ninguém”.

Visita de Donald Trump acaba amanhã — e até agora o Presidente dos EUA ainda não viu as manifestações

Donald Trump iniciou esta segunda-feira a sua primeira visita de Estado ao Reino Unido. A vista tem uma duração prevista de três dias. No primeiro, Donald Trump passou grande parte do dia com a família real britânica, tendo terminado com um banquete oferecido pela rainha Isabel II. No segundo dia, esta terça-feira, Donald Trump esteve reunido com a primeira-ministra britânica, Theresa May, e vários grandes empresários do Reino Unido e dos EUA — e que vai terminar com outro banquete, desta vez oferecido por Donald Trump, na residência oficial do embaixador dos EUA. O terceiro e último dia será marcado por uma cerimónia para assinalar os 75 anos do desembarque das tropas aliadas na Normandia (ocasião conhecida como o Dia D), após a qual Donald Trump viajará para a Irlanda, cujo primeiro-ministro, Leo Varadkar, vai encontrar.

Os dias de Donald Trump em Londres têm sido marcados por manifestações nas ruas. Se no primeiro dia houve manifestantes anti e pró Trump em frente ao Palácio de Buckingham, no segundo dia o destaque foi todo para a manifestação contra o Presidente dos EUA em Trafalgar Square.

O líder da oposição britânica, o trabalhista Jeremy Corbyn, recusou participar em todas as ocasiões formais para as quais foi convidado a propósito da passagem de Donald Trump pelo Reino Unido — e, esta terça-feira, foi um dos principais oradores na manifestação contra o Presidente norte-americano.

Quando perguntaram a Donald Trump na conferência de imprensa se estaria disponível a assinar um acordo de comércio com Jeremy Corbyn no caso de este vir a ser primeiro-ministro do Reino Unido, o Presidente dos EUA começou por falar sobre Sadiq Kahn, o presidente da câmara de Londres — possivelmente porque, na segunda parte da par pergunta, que era dirigida a Theresa May, a jornalista da Sky News falou daquele autarca.

Porém, quando alertado para o facto de que estava a responder sobre a pessoa errada, Donald Trump respondeu rapidamente, já sobre o líder do Partido Trabalhista: “Ele queria encontrar-se comigo e eu disse-lhe que não. Não conheço Jeremy Corbyn, nunca me encontrei com ele, nunca falei com ele. Ele queria encontrar-se comigo hoje ou amanhã, mas eu decidi que não iria fazer isso. No sítio de onde ele venho, diz-se que ele é uma força negativa. Acho que as pessoas devem fazer as coisas de forma correta em vez de criticarem. Não gosto nada de críticos, gosto mais de pessoas que fazem coisas. Por isso decidi não encontrar-me com ele”.

Sobre as manifestações, Donald Trump repetiu o que já tinha escrito no tweet no primeiro dia da sua visita: mal as viu e é tudo fake news. “Hoje disseram-me que havia manifestações e perguntei: onde é que elas estão? Não vi nada. Vi uma manifestação pequenina quando vim para cá, muito pequeno. Por isso, odeio ter de dizê-lo, muito disto são notícias falsas. Mas vi muitas pessoas a abanar a bandeira a americana e a vossa bandeira. Foi um espírito tremendo, foi amor. Havia muito amor, é uma aliança”, disse Donald Trump

Fonte: Observador