Termina nesta quinta-feira (06/02), em Brasília, um “encontro técnico” do chamado Processo de Varsóvia, uma iniciativa lançada há cerca de um ano pelos governos dos Estados Unidos e da Polônia.

A ideia do “processo”, que conta no seu núcleo com países do Oriente Médio, como Israel, Arábia Saudita e Bahrein, além da Romênia e da Coreia do Sul, entre outros, é “promover um futuro de paz e segurança no Oriente Médio”.

Na pauta oficial do grupo de trabalho na capital brasileira estão assuntos humanitários e de refugiados. Entre os participantes estiveram o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o Ministro de Negócios Estrangeiros da Polônia, Jacek Czaputowicz, e o Secretário de Estado Assistente Adjunto para Populações, Refugiados e Migração dos EUA, Richard Albright.

Este é um entre vários grupos de trabalho do Processo de Varsóvia. “Na verdade, nenhum desses grupos de trabalho interessa muito do ponto de vista do seu tema específico”, avalia o sociólogo Demétrio Magnoli, em entrevista à DW Brasil.

“Os grupos são uma cobertura para uma articulação diplomática na qual os Estados Unidos procuram isolar o Irã e, principalmente, montar uma aliança para se contrapor aos europeus que procuram conservar o acordo nuclear que foi firmado com o Irã. É para viabilizar uma articulação diplomática para mostrar que os Estados Unidos não estão sozinhos na sua posição contra o acordo nuclear”, diz.

“O nome sugere que [o processo] é sobre a paz no Oriente Médio, mas a agenda da conferência – e os convidados – acabaram concentrando muito a discussão no Irã”, afirma o cientista político Guilherme Casarões, da Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Quando o “processo” foi iniciado, no fim de 2018 e começo de 2019, o mundo estava no auge do debate sobre a continuidade do acordo nuclear com o Irã. “Foi no primeiro encontro do processo que Donald Trump tentou avançar seu próprio desejo de interromper o acordo”, diz Casarões. Só que, devido à posição das potências europeias a favor de manter o acordo, a conferência na capital polonesa acabou esvaziada.

Com a morte do principal comandante militar iraniano, Qassim Soleimani, executado por um ataque americano no começo de janeiro, as coisas mudaram em relação ao ano passado.

Segundo Casarões, inicialmente, organizar o encontro em Brasília seria um gesto de agrado do Brasil aos Estados Unidos, mas hoje o significado é bem mais profundo: “Significa que o Brasil está de acordo com o tipo de política que os Estados Unidos vem fazendo com relação ao Irã. É o recado de uma adesão muito mais clara do Brasil a políticas que, na minha avaliação, não são do interesse do Brasil”, diz.

Ele destaca que o Irã é um forte comprador de milho e de carne de frango halal do Brasil. “Deveríamos manter uma relação minimamente cordial e pragmática com o Irã, e não de hostilidade”, diz. Ainda mais que os Estados Unidos não têm muito a oferecer ao Brasil em troca desse alinhamento automático, comenta o cientista político.

Quebra de tradição

Esse alinhamento quebra uma longa tradição do Brasil de ser mediador nas crises no Oriente Médio, avalia o especialista em relações internacional David Magalhães, da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

“Estou falando de uma tradição de política externa que começou em 1967, no Brasil do governo militar. Foi o governo Costa e Silva que, pela primeira vez, defendeu abertamente uma solução de dois Estados para o conflito entre Israel e os palestinos”, diz.

Os governos seguintes mantiveram a equidistância nas tensões entre a Arábia Saudita e o Irã. “Agora o Brasil, pela primeira vez, assume, de forma automática, a agenda da política externa americana para a região”, comenta o especialista.

Nenhum dos analistas ouvidos pela DW Brasil espera resultados concretos do encontro em Brasília. “Não vai sair de lá nenhuma grande decisão em termos de política externa brasileira ou americana para o Oriente Médio”, diz Magalhães. “É muito mais para deixar clara a posição do Brasil: o país está com os Estados Unidos, e nós aderimos às diretrizes da agenda americana para a região.”

Para Magalhães, fica cada vez mais evidente a influência de Felipe Martins, assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, na política externa brasileira.

“Sua leitura [de Felipe Martins] dos problemas está tão turvada de ideologia, tão encharcada desse pensamento de que é necessária uma conexão judaico-cristã para salvar a civilização que todos esses problemas de ordem geopolítica acabam sendo postos de lado por conta desse pensamento ideológico e quase cruzadista”, observa o especialista.

Viés antiglobalista

A aliança brasileira com os Estados Unidos de Trump e com Israel do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tem um viés antiglobalista, de resistência a órgãos internacionais, como as Nações Unidas, considera Magalhães. Além disso, é resultado da crescente influência dos evangélicos, tanto na política brasileira como na americana, avalia.

“[No Brasil] tem um grupo religioso sionista-cristão que apoia esse vínculo automático. Então, essa relação com o nacional-populismo israelense e o nacional-populismo americano está na base do governo brasileiro”, diz.

Para Magnoli, são Olavo de Carvalho, ideólogo do governo do presidente Jair Bolsonaro, e o filho “03” do presidente, Eduardo Bolsonaro, que dão as cartas na política externa brasileira. Ambos são próximos ao ultraconservador Steve Bannon, ex-estrategista-chefe de Trump e fundador do The Movement, um grupo de nacional-direitistas.

Mas há também, dentro do governo brasileiro, uma forte resistência ao alinhamento do Brasil com os Estados Unidos, avalia o sociólogo. “Essa orientação de alinhamento absoluto com os Estados Unidos e, em particular, a participação do Brasil no Processo de Varsóvia, enfrenta uma resistência bem clara – embora surda – do chamado núcleo militar do governo brasileiro.”

O vice-presidente Hamilton Mourão e outros militares no governo se opõem também à transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Para eles, é de interesse nacional manter a neutralidade perante os conflitos no Oriente Médio, tendo em vista, também, as pesadas exportações brasileiras para os países árabes da região.

Esse núcleo militar tem conseguido, até agora, frear a transferência da representação diplomática. Mas, depois da morte de Soleimani, Bolsonaro voltou a falar na mudança.

“Talvez seja essa oposição surda que explique por que o Brasil acabou sediando um grupo de trabalho que parece de pouca efetividade geopolítica, de assuntos humanitários e de refugiados”, avalia Magnoli. “Isso revela que, por enquanto, a adesão do Brasil aos Estados Unidos é periférica.”

Fonte: DW