Ele é tocantinense de Porto Nacional, tem 31 anos, é solteiro, cursa bacharelado em Turismo no Instituto Federal de Goiás e sobrevive vendendo Geladinhos Gourmet 

Brasil, Goiânia, Fevereiro/2020 – Fizemos uma entrevista com Paulo Célio José da Silva, para conhecermos um pouco de sua trajetória e sabermos o que é e como um garoto que vendia cocada, foi parar na cidade de Goiânia, capital do estado de Goiás cursando turismo.

RUSA – Há quanto tempo mora em Goiânia?

PC – Eu mudei para Goiânia em março de 2018, porque eu fui morar no Tocantins para estudar na Universidade Federal  do Tocantins – Campus de Porto Nacional, mas eu morei em Goiás de 2001 até dia 30 de janeiro de 2017. Eu, minha mãe e meus irmãos através do meu ex-padrasto,  que nos chamou para morar na cidade de Aparecida de Goiânia, próxima à capital, sendo que a  nossa antiga morada que era na Ceilândia-DF.

RUSA – Quantos irmãos você tem?

PC – Eu tenho sete irmãos, sendo duas mulheres e cinco homens.

RUSA – Quantos fazem ou fizeram curso superior?

PC – O único filho que está cursando um curso superior sou eu. Meus irmãos não terminaram o ensino médio. Só a minha irmã mais velha que fez EAJA e terminou o ensino médio no final de 2019.

RUSA – Porque foi morar na cidade de Goiânia?

PC – A princípio quando mudamos de Brasília para Aparecida de Goiânia, eu não gostava muito daqui, principalmente de Aparecida, tanto que eu tinha uma tia e primos que moravam no setor universitário e eu queria muito morar com eles, mas por causa do meu ex-padrasto, minha mãe não deixou eu vir. Meu tio e a minha tia queriam muito que eu morasse com eles e iriam me ajudar nos estudos. Mas com tempo comecei a participar de palestras sobre políticas públicas e movimento estudantil, me candidatei para o Grêmio Estudantil na minha escola em Aparecida de Goiânia. Foi assim que consegui ficar por um bom tempo em Aparecida, porque gostava muito do meu trabalho com o movimento estudantil e as ações sociais que organizávamos para a comunidade, como por exemplo: O Cineminha para as pessoas que não tinham condições de assistirem aos lançamentos nos cinemas. O Cineminha era cobrado R$ 0,50 centavos de cada pessoa. Teve uma sessão do filme Homem Aranha 2, que deu 120 pessoas numa sala. Foi um sufoco e coloquei um limite de 70 pessoas por sessão. Foi muito boa minha experiência com o Grêmio Estudantil do colégio Estadual Irmã Angélica, pude conhecer Florianópolis, Jataí, Hot Park, e aprender muito sobre o protagonismo juvenil. Foram experiências boas que me deram uma estrutura boa para trabalhar com as pessoas, liderança de grupos e a facilidade em falar para várias pessoas ao mesmo tempo.

RUSA  – O que você faz para sobreviver na capital?

PC – Eu sempre me virei aqui em Goiânia para sobreviver. Minha renda principal de 2018 até os dias de hoje são os meus geladinhos gourmet, que vendo dentro do IFG nos três turnos. Na parte da manhã eu fico no IFG das 10:00 até ás 13:00h, volto para casa e as 14:30h já estou no IFG para vender geladinhos para os alunos no primeiro intervalo da tarde, fico no pátio até as 16:50h, porque as 16:15h tem outro intervalo, volto pra casa e estourando as 18:40h eu já estou no IFG novamente para receber os alunos que estão chegando para as suas aulas do período noturno, as 19:00h subo pra sala de aula, onde vendo no mínimo uns 20 geladinhos para galera da minha sala. As 20:h eu volto pro pátio, porque tem o intervalo até as 20:45h e continuo vendendo os geladinhos. Através disso eu consigo pagar aluguel, contas de água, luz, internet, alimentação, comprar remédios, viajar quando dá tempo e sobra dinheiro, e ainda pago um consórcio que é um grupo fechado de 6 pessoas, no valor de 250,00 reais todo mês, que eu organizo.

RUSA  – Como as pessoas ao seu redor veem isso?

PC – Muitos falam que eu sou guerreiro por saber das minhas condições financeiras, sendo filho de mãe de 8 filhos, que não foi alfabetizada e quando meu pai saiu de casa, ele levou tudo, até o botijão de gás e o fogão ele deu para os vizinhos, só para pirraçar minha mãe, esquecendo que tinha 6 filhos pequenos com ela, já que os outros dois mais velhos eram filhos de outro homem. Fácil não é. Você tem que se dedicar ao máximo possível, inovar sempre, continuar com a qualidade dos produtos e é isso que as pessoas gostam em mim, da minha força de vontade de lutar, de não deixar de atender todos do mesmo jeito, independente da classe social. E através das minhas vendas eu pude conhecer várias pessoas.

RUSA – Como é sua convivência na universidade?

PC – Muito boa, sou muito participativo em tudo, mesmo com o tempo sendo puxado por causa das vendas dos geladinhos, eu gosto de participar dos projetos de pesquisa. Até hoje nunca tive uma reprovação. Cursei até o terceiro período do curso de História e agora irei cursar o terceiro período de Turismo e gosto muito do meu curso e da instituição de ensino. Eu brinco que o IFG é a minha primeira casa, e onde eu moro é só um lugar para dormir e pronto. Praticamente fico mais no IFG do que em casa

RUSA – Quais projetos você desenvolve como acadêmico?

PC – Na UFT eu fui presidente do Centro Acadêmico Herodoto, do Curso de História. Desenvolvemos o Cine Clube, onde passávamos filmes e depois uma roda de discussão sobre o filme, também lutei junto com os alunos para o benefício da Moradia Estudantil dentro do Campus, já que havia um bloco de 12 salas e 4 banheiros que seriam desocupados por causa da inauguração do novo bloco que tem capacidade de 34 salas de aulas e 6 banheiros. Também fiquei responsável pela comissão eleitoral para eleição do DCE da UFT, onde eu representei o Campus de Porto Nacional, tendo uma grande responsabilidade com a organização da equipe de trabalho no dia da eleição, urnas, apuração de votos e muito mais. Meu fim na UFT foi com o trabalho no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), onde durei só dois meses no programa porque o programa tinha sido parado pelo governo Temer, mas com mobilização de vários alunos e professores do Brasil todo, em Agosto de 2018 eu voltei para o programa, mas já no IFG, onde fiquei fazendo tipo um estágio no CEPI  Pré Universitário e depois fui para o EJA Madre Francisca na Vila Pedroso. O PIBID tem o intuito dos alunos das licenciaturas terem a oportunidade de ter uma vivência maior com os alunos e poderem fazer projetos e artigos sobre a educação, onde eu e uma colega, criamos um artigo sobre a Perspectiva sobre as aulas de História para os alunos do Ensino Médio do CEPI Pré Universitário. Além disso, eu participei de outros eventos, em novembro de 2018 fui para uma Escola Agrícola em Uirapuru de Goiás, onde eles trabalham com a Pedagogia da Alternância, eu e mais 14 colegas do segundo período de História, juntamente com nossa professora fomos prestigiar a Feira de Ciências da Escola Agrícola, eu e mais 3 colegas fizemos uma palestra sobre a história da sustentabilidade, aproveitando o tema da Feira de Ciências e fazendo um marco histórico desde a idade média até os dias atuais.

Recebendo aluno intercambial da Tailândia no aeroporto

Atualmente eu faço parte da AFS Intercultural Brasil, desde setembro de 2019, no Comitê COE Goiânia, como voluntário e fazemos o trabalho de receber os alunos intercambiadas que vem de outros países para um intercambio intercultural de 11 meses. Nós como voluntários fazemos o trabalho de aconselhamento dos estudantes, projetos para integração com todos os intercambistas, famílias que recebem os mesmos e os voluntários .

Walking Tour em Goiânia

No dia 19 de outubro de 2019 eu juntamente com a voluntária Thawanny fizemos um Walking Tour no centro de Goiânia, capital do estado de Goiás e apresentamos os monumentos de Art Déco  e contamos um pouco a história de cada monumento para os intercambistas, voluntários e familiares. No primeiro semestre de 2020 estamos programando mais atividades para ter uma integração maior com todos.

Paulo e sua amiga do curso de História explicando sobre a Estação Ferroviária, no Walking Tour

RUSA  – O que idealiza para a vida?

PC – Eu idealizo poder terminar meus estudos e poder fazer uma especialização na minha área de gestão porque eu gosto muito. Estou com o propósito de conhecer a Tailândia em 2021, porque é um pais que admiro muito e faço pesquisas sobres ele. Não quero muito, mas quero ter a oportunidade de me formar, ter um trabalho onde eu possa ter uma estabilidade financeira e através do meu trabalho conseguir colher muitos frutos bons.

RUSA  – Onde Paulo Célio José da Silva quer chegar?

PC – Eu sou um rapaz muito sonhador e sempre falo que enquanto Deus me der um segundo de suspiro, eu irei lutar para alcançar meus objetivos, quero muito poder sair do país e tenho propósito de estudar futuramente na Tailândia e se possível morar lá. Sonho e realizarei meu sonho de poder trabalhar em uma grande empresa que trabalhe com a Gestão e a Hospitalidade, é tão bom você ver no rosto das pessoas a satisfação que eles tiveram pelo trabalho que você fez.

RUSA  – Quem é o Paulo Célio José da Silva?

PC – Eu sou um rapaz simples, extrovertido que nunca deixa a peteca cair, uma pessoa que já fez de tudo um pouco, de um simples porteiro, entregador de panfletos no sinaleiro, vendedor de cocadas na rua (Andava de Aparecida de Goiânia até na policia federal todos os dias vendendo cocadas), até ser um Gestor de RH de uma empresa de segurança e de um supermercado grande em Aparecida de Goiânia, tudo conquistado com muita garra e determinação.  Às vezes temos dificuldades na vida, mas isso serve para me dá mais vontade de lutar todos os dias, cada dia é uma nova batalha que começo, e nem todo dia é dia de vencer. Sou um rapaz natural do Tocantins, de uma família simples que sempre conquistou as coisas com muita luta, acordando nas madrugadas ou até ficando sem dormir a noite para produzir meus geladinhos e poder atender meus clientes. Quem me conhece sabe que não gosto de tristeza, não aceito ninguém triste a minha volta e muitos amigos me falam que quando pensam em desistir eles se lembram do guerreiro que eu sou e usam de exemplo para suas vidas.