Jorge Alexander Cerbano Malara havia esperado 11 meses. No fim, porém, a audiência havia sido marcada para El Paso no dia 11 de dezembro de 2019. Contudo, Jorge Alexander não pôde se apresentar. Três semanas antes do compromisso, no dia 20 de novembro, seu corpo desmembrado foi encontrado na periferia de Tijuana.

Esse salvadorenho de 35 anos se tornou um dos símbolos trágicos do Remain in Mexico, o programa lançado há um ano pelo governo dos EUA. Além de Carlos Gómez Perdomo, o hondurenho que inaugurou a política de transferências para o outro lado da fronteira dos requerentes de asilo, no dia 29 de janeiro de 2019. No dia anterior, a ministra do Departamento de Segurança Interna dos EUA, Kristjen Nielsen, havia convocado os canais de televisão para a Ponte de San Ysidro – que conecta San Diego com a cidade mexicana de Tijuana – para apresentá-lo.

Na época, a atenção, dentro e fora dos EUA, estava concentrada na queda de braço em torno do muro, entre o presidente Donald Trump, e a oposição democrata, decidida a lhe negar os fundos para construí-lo. Na realidade, nos bastidores, o chefe da Casa Branca já havia começado a construir o muro de verdade, a barreira insuperável da burocracia. Porque o acordo Remain in Mexico é um dos eixos daquele arame farpado.

E, paradoxalmente, Trump o desdobrou com a ajuda de um insuspeito: o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, líder daquilo que resta da esquerda no México e fervoroso nacionalista. O plano permitiu transferir para o país vizinho mais de 62mil  requerentes de asilo à espera da resposta dos tribunais dos EUA. Mulheres, homens e até mesmo crianças – como documentou a Human Rights Watch –, um quarto do total, incluindo 500 recém-nascidos, alojados em acomodações improvisadas, como os 1,5 mil acampados em barracas nos arredores da ponte Matamoros. A maioria são hondurenhos e guatemaltecos, mas também há cubanos, salvadorenhos, equatorianos, venezuelanos, nicaraguenses e, desde janeiro, brasileiros.

Um terço deles – com base no último estudo da Universidade de Syracuse, nos EUA – ainda esperam a primeira audiência diante de um juiz. Além disso, dos pouco mais de nove mil processos concluídos, apenas 117 refugiados – menos de 0,2% do total – obtiveram o status de refugiados. Isso não surpreende, pois apenas 5% podem contar com um advogado. A grande parte não pode se dar ao luxo disso, e encontrar um advogado voluntário a distância não é algo simples.

Com base nos dados da Universidade de Syracuse, os requerentes de asilo que permanecem nos EUA têm sete vezes a chance de conseguir um advogado, em comparação com os refugiados enviados para o outro lado da fronteira. Além disso, sem uma representação legal, estes últimos geralmente não conseguem se orientar no sistema estadunidense. Até mesmo conhecer o calendário das audiências se torna um esforço titânico. A metade, portanto, acaba não se apresentando no tribunal na hora certa. Isso implica o automático encerramento do caso, com uma ordem de expulsão.

No entanto, essa não é a pior conclusão possível, como mostra a história de Jorge Alexander Cerbano Malara. Com 34.582 homicídios somente em 2019, o México está longe de ser um “país seguro” para os migrantes. Especialmente nas cidades fronteiriças, incluindo as oito para onde Washington envia os aspirantes a refugiados. Fugindo da violência bélica que dilacera a América Central, estes últimos se veem presos na narcoguerra mexicana.

“Em Nuevo Laredo, temos pacientes que não saem dos abrigos para não serem sequestradas ou mortas”, diz Sergio Martín, chefe de missão dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) no México. “Os Estados Unidos empurram os requerentes de asilo para os braços dos traficantes que controlam as rotas migratórias neste país”, acrescenta.

Alguns dados coletados pela organização em Nuevo Laredo comprovam isso. Cerca de 80% dos assistidos nos primeiros nove meses de 2019 relataram pelo menos uma agressão; em 43,7% das vezes o incidente tinha ocorrido no máximo na semana anterior. Em setembro de 2019, 43% dos pacientes do MSF havia sofrido um sequestro, 12% havia escapado a tempo. O número havia saltado para 75% no mês seguinte.

“Falamos apenas de quem se dirige até nós”, ressalta Martín. O número, portanto, poderia ser muito maior, até porque a maioria não denuncia por medo. Além disso, Nuevo Laredo se encontra no Estado de Tamaulipas, meta considerada “perigosa” pelo Departamento de Estado dos EUA, assim como o Iraque e o Afeganistão.

Nos mesmos meses, o Instituto para las Mujeres em la Migración registrou 418 sequestros de requerentes de asilo em Chihuahua, Tamaulipas e Baja California. “O Remain in Mexico já prejudicou vidas demais”, afirmou o bispo de El Paso, Mark Seits.

Para Dylan Corbett, do Hope Border Institute, no entanto, o programa alcançou o objetivo: “Ele foi pensado como um impedimento, assim como as separações familiares, mas sem causar o mesmo frisson. Ele devia derrubar as chegadas e conseguiu isso, sobre a pele dos migrantes”.

Retórica à parte, o muro físico já é secundário. Trump já tem a sua barreira, e ela se chama México.

Fonte: Humanitas