Os Estados Unidos se tornaram o epicentro da tragédia da covid-19 no mundo: desde o final de semana passado, é o país com o maior número de óbitos causados pela doença.

Os EUA registraram mais de 23,6 mil mortes e 582,5 mil casos até esta terça-feira (14/4), segundo dados da Universidade Johns Hopkins.

Cerca de 2 mil mortes diárias foram registradas nos últimos quatro dias, a maioria delas na cidade de Nova York e arredores, embora especialistas considerem que o número real pode ser maior, uma vez que as mortes em residências foram excluídas das estatísticas oficiais, de acordo com agência Reuters.

“Estamos nos aproximando do pico agora”, disse o diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) na última segunda-feira no programa Today, da emissora NBC.

Aqui, reunimos quatro fatores que, segundo especialistas em saúde pública, epidemiologistas e analistas, levaram os EUA a esta grave situação.

A lentidão da resposta da Casa Branca

Se os especialistas concordam em alguma coisa, é que os EUA precisavam ter tomado medidas mais sérias e abrangentes bem antes. A própria equipe da Casa Branca na linha de frente da luta contra a covid-19 reconheceu esses erros.

Anthony Fauci, chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e um dos principais nomes da equipe de resposta a pandemia do país, admitiu que “ninguém nega” que medidas de mitigação precoces poderiam ter salvado vidas.

Os EUA relataram seu primeiro caso em 21 de janeiro. Dez dias depois, o governo tomou a primeira medida de peso, decretando a proibição de entrada no país de estrangeiros que haviam visitado a China nos últimos 14 dias.

Mesmo ressaltando a importância desta ação, muitos analistas fazem críticas ao fato de ela não ter sido acompanhada de outras medidas para preparar o país para a pandemia, como recomendar que cidadãos cumprissem as regras de distanciamento social, o que só foi feito em meados de março.

Além disso, declarações controversas e contraditórias do presidente Donald Trump, que comparou a covid-19 com uma simples “gripe” e disse que a epidemia acabaria com a chegada do “calor” como “se fosse um milagre”, passaram a ideia de que o país tinha tudo sob controle.

Recentemente, ao ser questionado sobre suas declarações, Trump disse que queria ser otimista e não alarmar a população.

O jornal The New York Times divulgou em 11 de abril uma investigação sobre os alertas que Fauci e outras autoridades levaram à Casa Branca, insistindo que medidas mais agressivas fossem tomadas até fevereiro.

Questionado sobre isso, Fauci explicou à emissora CNN que “muitas vezes essas recomendações são postas em prática, às vezes, não”. “Mas as coisas são como são, e estamos onde estamos agora”, afirmou o médico.

“O que é levado em consideração ao tomar essas decisões é complexo. Havia muita pressão contra o isolamento época.”

Problemas com testes

Testes defeituosos – que tiveram de ser susbstituídos – e o acesso limitado aos exames atrasaram a resposta ao avanço da doença.

“Grande parte da culpa pela situação atual se deve ao atraso nos testes nos EUA. Estávamos vendo a pandemia se desenrolar, sem capacidade de testar e identificar casos. Isso resultou na disseminação maciça de covid-19 nos EUA”, disse o cirurgião Thomas Tsai, pesquisador de políticas de saúde na Universidade Harvard, à BBC no início deste mês.

O problema começou quando o CDC decidiu que seria o único a fabricar os testes, apontou Krys Johnson, professor de epidemiologia na Universidade Temple, em entrevista à BBC em março.

“O resultado disso foi que, quando os kits de testes começaram a ser enviados para os Estados, foram detectados alguns com defeito, que tiveram de ser substituídos. Foi um processo que levou tempo e, portanto, muitos Estados não conseguiram começar a fazer testes até recentemente”, disse ele.

Por mais de um mês, cada Estado teve de enviar amostras de possíveis contágios por correio para a sede do CDC em Atlanta, capital da Geórgia, o único centro autorizado a realizar testes.

As complicações não terminaram com a distribuição dos kits, porque a isso se somou o difícil acesso a eles, mesmo se a pessoa fosse considerada caso suspeito.

Com o tempo, a situação mudou e, em meados de março, o número de testes realizados diariamente no país estava crescendo exponencialmente, de acordo com o jornal Washington Post, que cita estatísticas do The Covid Tracking Project.

Em média, nos últimos sete dias, os EUA realizaram cerca de 147 mil novos testes diariamente.

O sistema de saúde

O sistema de saúde nos EUA, baseado principalmente em planos de saúde privados, complica a situação no momento em que é necessário identificar casos de covid-19, de acordo com epidemiologistas.

A falta de cobertura de saúde é um problema persistente e, neste momento, torna-se crucial: em 2018, 27,5 milhões de pessoas não tinham um plano em qualquer época do ano, de acordo com dados do Censo, que refletiam um aumento deste número em relação ao ano anterior.

Isso faz com que algumas dessas pessoas evitem ir ao médico em caso de infecção: para quem não tem plano, uma consulta pode custar centenas de dólares.

“Não vou ao médico desde 2013”, escreveu Carl Gibson, jornalista americano de 32 anos, em uma coluna de opinião no jornal britânico The Guardian no mês passado. “Quando você multiplica minha situação por 27,5 milhões, a imagem é aterrorizante.”

Os imigrantes sem documentos, cerca de 11 milhões de pessoas, também costumam evitar procurar atendimento médico por medo se serem deportados.

“É difícil para os indocumentados acessar cuidados médicos. Lembre-se sempre do fato de que o nome da pessoa aparece no sistema legal ao ir a um centro médico, e ela corre o risco de deportação”, diz Sebastian, que mora no país desde os 3 anos de idade, quando seus pais o trouxeram do México.

Mas não há problemas só para quem não está coberto por um plano. A cobertura básica paga apenas uma pequena fração do custo da consulta ou de um tratamento.

“Durante a temporada de gripe, ficamos muito doentes, mas levar meus filhos para ver o pediatra custa US$ 100 (R$ 520)”, diz Lisa Rubio, de 28 anos, que tem um destes planos por meio da empresa para a qual trabalha.

Essas falhas sistêmicas também foram expostas em outras crises de saúde, como na apidemia de HIV/Aids nos anos 80, quando o grande número de pessoas não diagnosticadas com HIV exacerbaram a situação, segundo Ravi Grvois-Shah, diretor de uma clínica móvel de saúde mantida por doações de caridade. “Não há nada que indique que será diferente com o coronavírus”, diz ele à BBC.

Além disso, não há uma exigência de que empregadores nos EUA ofereçam licença médica remunerada a seus empregados.

A falta de coordenação dos Estados

A diferença nas situações em cada Estado do país foi um aspecto relevante em meio à pandemia. Muitos analistas consideram que houve falta de liderança por parte da Casa Branca, e o enfrentamento ao novo coronavírus ficou a cargo dos governadores.

Enquanto alguns impuseram restrições precocemente e declararam estado de emergência antes da explosão dos casos, outros optaram por não fazê-lo, o que, na opinião dos especialistas, pode ter contribuído para a escalada de infecções.

A Califórnia é um dos exemplos de sucesso destacados por especialistas em saúde pública, com apenas 641 mortes entre os mais de 22 mil casos registrados até o último domingo, de acordo com a Johns Hopkins University.

Embora o país tenha agências nacionais como o CDC, cada Estado tem sua própria infraestrutura de saúde pública, e “parte do desafio é não haver uma estratégia nacional coordenada no país, fazendo com que cada Estado trace sua estratégia individualmente”, disse Tsai.

Todos os Estados já declararam estado de emergência por causa da covid-19. Nova York, entre todos eles, é o que enfrenta a pior situação, com mais de 189 mil casos.

O governador Andrew Cuomo, no entanto, disse no sábado que o número de mortos parecia estar se estabilizando. Depois de anunciar 783 mortes em 24 horas, Cuomo ressaltou que os números foram semelhantes nos últimos dias.

“Não é o número mais alto, e você pode ver que está se estabilizando, mas isso está ocorrendo em um ritmo horrível”, disse ele. “São números inconcebíveis, que representam dores e perdas extraordinárias.”

Fonte: BBC