Numa altura em que são desconhecidas muitas das características do novo coronavírus (SARS-CoV-2), uma das poucas esperanças para conseguir abrandar a sua propagação era o calor. Especulava-se que a aproximação do verão e aumento da temperatura fosse capaz de diminuir a resistência do vírus e travar a sua propagação.

Fernando Belda, da Organização Meteorológica Mundial e porta-voz da Agência Estatal de Meteorologia de Espanha (Aemet), em conjunto com a sua equipa, diz ter encontrado os “primeiros indícios de correlação” entre o frio e a propagação da doença em Espanha.

Estamos a observar um padrão: quanto menor a temperatura, maior o dano”,explicou Balda ao jornal espanhol El País.

Relação entre a temperatura média de cada comunidade espanhola e o número de novas infeções por cada 100 mil habitantes correspondente a 5 de abril. Crédito: AEMET / ISCIII

No entanto, tendo em conta os antecedentes históricos e o que está a acontecer no resto do mundo, os investigadores defendem que o Verão não será suficiente para travar a pandemia.

Investigadores espanhóis da Aemet e do Instituto de Saúde Carlos III (ISCIII), analisaram a temperatura média de cada comunidade autónoma espanhola durante 14 dias e o número de novas infeções diárias por cada 100 mil habitante ao longo desse período. Belda sublinha que o padrão se repete ao longo do período estudado, desde o início do confinamento até agora.

Para além disso, o estudo também indicou que a humidade do ar pode igualmente influenciar a transmissão da doença. “Altas temperaturas e a elevada humidade reduzem significativamente a transmissão da Covid-19”, diz a investigação.

A epidemiologista Cristina Linares, uma das autoras da investigação, alerta que “é preciso ter muito cuidado, porque as condições de humidade e temperatura variam muito de uma área geográfica para outra e, é claro, existem muitos outros fatores que influenciam a transmissão e disseminação do novo vírus”.

“Há uma correlação estatística”, admite a epidemiologista a El País, mas sublinha que poderá ser apenas uma ilusão:

São resultados preliminares. Outros fatores que influenciam a possível sazonalidade da propagação devem ser tidos em consideração, além das condições ambientais. A atividade humana, medidas de contenção, densidade populacional, entre outros, exercem uma influência decisiva”.

Outros estudos com as mesmas conclusões

Para além deste estudo desenvolvido em Espanha, ao longo das últimas semanas têm sido publicadas outras investigações que chegaram à mesma conclusão: o verão não irá abrandar a pandemia.

No passado dia 8, a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos aconselhou a Casa Branca a não dar como garantida a capacidade de o calor travar a pandemia: “Existem evidências que sugerem que o vírus da Covid-19 pode ser transmitido menos eficientemente em ambientes com temperatura e humidade mais altas. No entanto, dada a falta de imunidade ao vírus em todo o mundo, essa redução na eficiência da transmissão pode não levar a uma redução significativa na propagação da doença sem a adoção simultânea de intervenções na saúde pública”.

Para sustentar esta observação, o estudo menciona os casos da Austrália e do Irão, dois países que estão atualmente na época do Verão e enfrentam uma rápida disseminação do vírus. “Além disso, os outros coronavírus que causam doenças humanas potencialmente graves, como o vírus SARS e MERS, não mostraram nenhum comportamento sazonal”, argumenta ainda o estudo.

Não há provas até agora de que o SARS-CoV-2 poderá mostrar uma sazonalidade de inverno”, anunciava o Centro Europeu para o Controle de Doenças no final de março.

No início da pandemia, um estudo na China sugeriu que, por cada aumento de um grau na temperatura, o número diário de casos confirmados caía entre 36 a 57 por cento, desde que a humidade relativa se mantivesse em cerca de 75 por cento. Os próprios autores deste estudo reconheceram que esta correlação entre o vírus, a temperatura e humidade não era consistente em diferentes províncias.

Dadas as conclusões que deitam por terra a esperança de travar a pandemia com a aproximação do verão, os estudos dão ênfase à importância das medidas de contenção e o isolamento social.

Em todo o mundo, a Covid-19 já fez mais de 133 mil mortos e infetou mais de dois milhões de pessoas.

Fonte:RTP