Como sociólogo e professor da Universidade Paris 8, Hamza Esmili tem se dedicado a estudar temas como a desigualdade, a radicalização e a marginalização urbana, que são muito recorrentes nos famosos subúrbios de Paris.

Ele vive no mais emblemático de todos, Saint-Denis, palco de violentos protestos que acabaram se espalhando pela França em 2005. À época, a população saiu às ruas para manifestar insatisfação com o alto desemprego e a brutalidade policial.

Quinze anos depois, Saint-Denis figura como uma das regiões da França com os mais altos índices de criminalidade, desemprego e, agora, mortalidade pelo novo coronavírus.

“É como se a vida dos pobres não tivesse nenhum valor”, afirma Esmili em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

A pandemia atingiu com força os franceses e a economia do país. Na semana passada, o Banco da França anunciou uma queda de 6% no PIB, o pior desempenho trimestral desde 1945.

E o número de infectados segue aumentando. Até esta segunda-feira (13/04), o país havia registrado 133 mil casos da doença e 14 mil mortes.

Para o sociólogo francês, o confinamento é um luxo que não chega às classes mais pobres, que precisam continuar trabalhando para sobreviver.

“Acredito que obviamente o confinamento é necessário para frear a pandemia atual. Mas, como sociólogo, vejo que a ideia de confinamento tem um certo número de pressupostos e não corresponde à realidade. Especialmente, não corresponde à realidade da população nos bairros mais pobres.

O confinamento é um conceito burguês. A ideia é que todos tenhamos uma casa separada, um pouco burguesa, na qual possamos nos refugiar quando há uma pandemia ou um desastre natural.

Mas nos bairros pobres não vejo nada disso. Existe uma realidade rodeada de condições insalubres, mas não é só isso. Nesse tipo de bairro, há casas em que vivem quatro, cinco pessoas por cômodo, por exemplo.

Há também moradias que não são habitáveis, onde não é possível ficar ali o dia inteiro porque o espaço não serve para isso.

O problema do confinamento é que ele se baseia numa espécie de mentira, de que estamos todos confinados. Mas em bairros mais pobres, como Saint-Denis, muita gente continua trabalhando, já que algumas fábricas continuam abertas, alguns mercados continuam abertos. O mesmo se passa com os agentes de segurança.

Tudo isso tem consequências dramáticas. Hoje, a região de Saint-Denis tem uma das mais altas taxas de mortalidade da França por causa do vírus.” – conclui o sociólogo.

Fonte:BBC