A estrondosa entrevista de John Bolton à emissora americana ABC exibida na noite de domingo é o exemplo perfeito de “uma mão lava a outra”. A ABC recebe material exclusivo para o horário nobre, e a emissora não se intimida em explorá-lo ‒ nos intervalos comerciais, já se anuncia que o programa da manhã seguinte também se ocupará detalhadamente do ex-conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump. E então, na próxima quarta-feira, exclusivo na ABC, Bolton será convidado no programa de entrevistas The View.

Se por um lado a presença televisiva amacia o ego de Bolton, por outro, trata-se de publicidade gratuita para seu livro que está sendo lançado nesta terça-feira. Em The room where it happened (A sala onde aconteceu, em tradução livre), Bolton descreve vivências e impressões de sua época na Casa Branca como assessor do atual presidente dos Estados Unidos, de abril de 2018 a setembro de 2019.

Mesmo antes do lançamento, o livro de memórias de Bolton foi motivo de muita controvérsia. O Departamento de Justiça americano entrou com uma ação para impedir a publicação da obra. Ela contém informações secretas, cuja publicação causaria danos irreparáveis aos Estados Unidos, disse o secretário de Justiça de Trump, William Barr. O juiz Royce Lamberth recusou, no fim de semana, o pedido para embargar a publicação, mas criticou fortemente Bolton por não ter esperado a revisão do texto na íntegra pelo Conselho de Segurança Nacional.

Lamberth acusou Bolton de interromper o processo de revisão após apenas quatro meses e enviar o manuscrito ao editor. Segundo o magistrado, o tempo não foi suficiente para que o livro fosse revisado. A consequência: Bolton poderá ter que entregar ao governo americano os 2 milhões de dólares que deverá receber pelo livro. No pior dos casos, poderá ser proferida até sentença de prisão contra ele.

“Oportunista” e favorável a soluções militares

Agora a obra está sendo lançada ‒ e, em sua entrevista à televisão, Bolton não parecia particularmente preocupado com as possíveis consequências. Em vez disso, ele estava visivelmente contente de si mesmo no papel de provocador, que não mais esconde sua verdadeira opinião sobre Trump.

Em seu livro, ele pinta um retrato devastador do presidente e seu processo de decisão na política externa. Bolton o descreve como errático e tolo, alguém que não se pode deixar sozinho nem por um minuto, além de desinformado e incapacitado para o posto. “Não acho que ele seja apropriado para o cargo”, disse Bolton na entrevista à ABC. “Eu não acho que ele seja competente o suficiente para cumprir essa tarefa.”

Críticos afirmam que gostariam de ter escutado essa avaliação de Bolton já em situação anterior ‒ por exemplo, no processo de impeachment contra o presidente, que terminou em fevereiro deste ano com a absolvição de Trump no Senado, depois de seu impedimento ter sido aprovado na Câmara dos Representantes.

Na época, Bolton não quis testemunhar. “Ele é um oportunista político”, disse Hakeem Jeffries, um dos deputados democratas que integravam a equipe de impeachment. “Ele teve a oportunidade de testemunhar. E recusou.”

Mas Bolton já estava insatisfeito desde a época na Casa Branca. O conselheiro, que assessorou os presidentes George H. W. Bush, George W. Bush e Ronald Reagan, é considerado um militarista linha dura que, em caso de dúvida, defende ataques diretos em vez de soluções diplomáticas. As conversações de Trump com opositores políticos como o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, não foram nada do seu agrado.

E então veio a crise na Ucrânia, estopim do processo de impeachment contra Trump. Bolton afirma que o presidente lhe disse pessoalmente que estaria retendo ajuda militar à Ucrânia até que o presidente ucraniano investigasse o filho de seu rival democrata Joe Biden. Ele próprio, Bolton, disse ter sido estritamente contra essa abordagem. Mas o ex-assessor, aparentemente, não ficou decepcionado o suficiente para entregar imediatamente o seu cargo ou testemunhar contra Trump após deixar a Casa Branca.

Impacto incerto na campanha eleitoral de Trump

O foco em sua futura carreira como autor pode ter influenciado Bolton a se negar a testemunhar no processo de impeachment, aponta Brandon Conradis, jornalista do The Hill, um jornal e site de notícias de Washington que informa sobre política e economia nos EUA. “Ele pretendia escrever um livro e queria guardar as melhores histórias para a obra”, afirma Conradis.

Bolton, por sua vez, alega que sua decisão “não teve nada a ver com lucro”. Segundo o ex-assessor, ele não seria capaz de mudar a opinião dos senadores republicanos, de forma que seu testemunho não faria diferença nenhuma

Mas uma coisa é certa: as memórias estouraram no meio da campanha eleitoral presidencial americana. O ex-conselheiro de Segurança Nacional não poderia ter escolhido um momento melhor para altos números de vendas.

Se as revelações de Bolton afetarão os resultados das eleições de novembro, já é outra questão. Conradis duvida disso. “Não acho que as memórias de Bolton realmente mudem a opinião das pessoas”, afirma o jornalista, explicando que a maioria dos americanos já está muito firme em sua posição.

Segundo ele, outros desenvolvimentos – como a crise do coronavírus, os problemas econômicos decorrentes da epidemia ou os protestos contra o racismo e a violência policial – seriam mais cruciais. “Ele [Trump] realmente teve alguns meses difíceis”, diz Conradis. “O lançamento dessas memórias é apenas a cereja do bolo.”

Fonte:DW