Sheikh Karim, um marinheiro do estado indiano de Odisha, passa horas ao telefone todos os dias, procurando empregos no exterior para os quais não consegue se candidatar. Junto com as Filipinas e a China, a Índia é um dos maiores fornecedores de tripulação para a indústria de navegação global. Mas o grande aumento de infecções por covid-19 no país e a escassez de vacinas deixaram trabalhadores em navios como Karim desorientados.

Portos globais agora estão fechando as portas para tripulantes e navios indianos. As empresas exigem a vacina de trabalhadores e marinheiros, trazendo más notícias para um setor marítimo já sobrecarregado.

Karim é lubrificador, ou seja, ele mantém e conserta motores e máquinas de navios. Ele diz que consulta repetidamente um site do governo para conseguir uma vacina contra covid-19 em sua cidade natal, Balasore. Mas, até agora, sem sorte.

“Não sei quando vou receber a primeira dose da vacina. É frustrante porque vejo empregos anunciados em navios cargueiros e petroleiros que pagam em dólares”, disse o jovem de 27 anos à DW, acrescentando que precisa desesperadamente da renda. “O custo de vida está aumentando, e há despesas adicionais com cuidados de saúde e hospitais para minha família e parentes com covid-19.”

Em vez disso, Karim agora trabalha como mecânico em uma oficina automotiva, recebendo apenas uma fração dos 1.500 a 1.800 dólares que ele normalmente ganharia por mês trabalhando em um navio estrangeiro.

A situação é a mesma de milhares de trabalhadores marítimos em toda a Índia que não conseguem sair do país. Por outro lado, as autoridades marítimas também aconselharam a tripulação indiana atualmente no mar a “desistir de desembarcar do navio” até que a situação melhore.

Caso no Maranhão

Isso não evita problemas a bordo das embarcações, como o ocorrido no Maranhão. Nesta segunda-feira (17/05), segundo o portal G1, havia subido para 15 o número de tripulantes diagnosticados com covid-19 dentro do navio MV Shandong, fretado pela Vale para transportar minério de ferro e que está ancorado na costa do estado brasileiro.

Em nota divulgada no último sábado, a Secretaria de Estado da Saúde informou que um homem de nacionalidade indiana, de 54 anos, fora internado em um hospital da rede privada de São Luís com sintomas do novo coronavírus. O paciente é um dos tripulantes do MV Shandong, que saiu da cidade do Cabo, na África do Sul, com destino à capital maranhense.

O indiano começou a sentir os sintomas da doença em 4 de maio e teve febre, sendo encaminhado em um helicóptero para um hospital da rede privada na última sexta-feira. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, 12 tripulantes infectados estavam sem sintomas e seguiam isolados dentro da embarcação. Outros três tripulantes apresentaram sintomas e foram internados no Hospital UDI, em São Luís.

Sem vacinas para trabalhadores essenciais

“A questão principal é que os marinheiros foram designados como trabalhadores essenciais, tanto em nível nacional como em vários outros países, o que significa que o governo deveria dar-lhes prioridade na vacinação”, disse Abdulgani Serang, secretário-geral do Sindicato Nacional dos Marinheiros da Índia. “Mas isso não está acontecendo.”

Ele disse que as autoridades marítimas estabeleceram instalações de vacinação exclusivas para trabalhadores marítimos em hospitais portuários em cidades como Mumbai, Calcutá e Kochi. “O problema é que as vacinas simplesmente não estão disponíveis”, disse Serang.

Os cerca de 240 mil marinheiros da Índia têm predominantemente entre 18 e 45 anos, uma faixa etária que deveria receber as vacinas produzidas na Índia, Covishield (desenvolvida pela empresa AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford e usada no Brasil) e Covaxin (do laboratório Bharat Biotech), a partir de 1º de maio. Mas a falta de estoques forçou as autoridades em muitos estados a adiar a vacinação.

“Marinheiros indianos não vacinados estão agora em desvantagem em comparação com pessoas de outras nacionalidades que poderiam preencher seus empregos. Por exemplo, indonésios ou chineses que tiveram prioridade na vacinação em seus próprios países”, disse Serang. “Não há proibição geral de tripulações indianas. Mas proprietários de navios se preocupam em levá-los.”

Medo de rápida disseminação de variante da covid-19

Portos como o de Cingapura e Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, já proibiram a troca de tripulantes de navios que viajaram recentemente a partir da Índia, dificultando a dispensa dos marinheiros ao final dos contratos.

Segundo relatos, o porto chinês de Zhoushan proibiu a entrada de qualquer navio ou tripulação que tenha passado pela Índia ou Bangladesh, país que também enfrentou um aumento de casos da doença nos últimos três meses.

“Há muita volatilidade e incerteza. As regras estão mudando o tempo todo”, disse Rajesh Unni, fundador e CEO do Synergy Group, uma empresa de gerenciamento de navios com sede em Cingapura. “A maioria dos armadores com quem conversamos diz que é muito arriscado fazer uma troca de tripulação com indianos.”

Sua empresa congelou temporariamente todas as mudanças de tripulação da Índia. Unni disse que os marinheiros vindos da Índia estavam testando positivo para covid-19, apesar da quarentena e de testes negativos antes do embarque. Há também receios sobre uma variante mais transmissível, a B.1.617,que supostamente está por trás da aceleração do surto explosivo da Índia.

No início deste mês, as autoridades de saúde da França identificaram a variante entre marinheiros doentes a bordo de um petroleiro que tinha ido para a Índia. Sem condições de conduzir a embarcação, que foi rebocada até o porto de Le Havre, os homens foram colocados em isolamento em um hotel.

Recentemente, a autoridade portuária da África do Sul anunciou que 14 tripulantes filipinos a bordo de um navio de carga da Índia para Durban foram colocados em quarentena depois de terem testado positivo para covid-19. O engenheiro-chefe do navio morreu de ataque cardíaco.

“O desafio é que os testes não são confiáveis, a variante é mais mortal e se espalha como um incêndio. Pode infectar todo o navio, basicamente imobilizando a embarcação”, disse Unni.

Substituir tripulantes indianos não é fácil

Com um número crescente de portos e aeroportos fechando as portas aos trabalhadores marítimos de e para a Índia, as empresas de navegação dizem que isso afeta as mudanças de tripulação. Várias empresas estão buscando temporariamente marinheiros de outras nações para substituir os tripulantes indianos.

Carl Schou, chefe executivo da Wilhelmsen, um intermediador norueguês de tripulação, disse que sua empresa obtém 15% de seus aproximadamente 10 mil trabalhadores da Índia. A empresa suspendeu as mudanças de tripulação na Índia entre 24 de abril até pelo menos o final de maio e está analisando outras nacionalidades para preencher as lacunas.

“Mas não é tão fácil quanto parece. Certos segmentos, como os petroleiros de gás e óleo, têm exigências muito específicas quanto à competência e níveis de experiência”, disse Schou. “A maioria das pessoas bem qualificadas vem da Índia. Assim, de repente, perdemos nossa fonte mais importante de especialistas. Encontrar a tripulação certa que corresponda aos critérios exatos é um problema e tanto.”

Marinheiros confinados em seus navios

Apesar dos problemas causados pela emergência sanitária na Índia, poucos acreditam que ela terá qualquer impacto imediato no movimento dos navios mercantes que transportam cerca de 90% do comércio global.

“Os navios não estão parando por causa de problemas com mudanças de tripulação. Alguns navios podem atrasar, mas isso não terá impacto na rede ou na cadeia de abastecimento”, observa Adhish Alawani, porta-voz da Maersk, maior empresa de transporte de contêineres do mundo, que possui um pool de 4 mil marinheiros indianos.

“A preocupação é que esta é mais uma crise humana, em que os trabalhadores marítimos permanecem a bordo por um período muito mais longo do que o previsto no contrato, porque eles não podem desembarcar e voar para casa”, disse ele.

No ano passado, o fechamento de fronteiras e as restrições de viagens causadas pela pandemia fizeram com que cerca de 400 mil marinheiros ficassem presos em navios indefinidamente, causando fadiga e problemas de saúde mental e de segurança.

Executivos de navegação dizem que a única saída é os marinheiros serem priorizados na vacinação global. “Em todo o mundo, há cerca de 1,6 milhão de marinheiros, e talvez isso signifique um dia de produção para um desses fabricantes de vacinas”, disse Schou. “Em apenas um dia você poderia vacinar todos os marinheiros, que são tão importantes para o comércio global e para manter o mundo funcionando.”

Fonte:DW