Se você é uma mulher intelectual, com aptidão para liderança, ou que tenha conhecimento sobre raízes e ervas medicinais, exerce a função de parteira, pratica o curandeirismo, estuda, lê, trabalha, se divorcia, então, você seria uma bruxa na idade média.

*Por Júlia Barros e Gabriela Rodrigues

A Igreja Católica matou e torturou mulheres consideradas hereges por séculos. As bruxas, eram, na maioria das vezes, mulheres que viajavam dias por aldeias para ajudar outras mulheres a parirem, que conheciam plantas medicinais, que demonstrassem interesse por leitura, contestassem a igreja, etc.  Era também muito comum os homens acusarem suas esposas de bruxaria, na tentativa de anular o matrimônio com a permissão da Igreja Católica. Porém, o conservadorismo da Idade Média, que enxergava feitiçaria nas mulheres intelectuais e independentes vê seus costumes desmoronando séculos mais tarde, com a permanência das bruxas do século 21, que acreditam na cura pela natureza, na irmandade e na liderança feminina.

A medicina, uma das áreas do conhecimento ligada à manutenção e restauração da saúde, trabalha com a prevenção e cura das doenças humanas e animais. Inserida há séculos na sociedade, é um dos pilares que contribuiu e ainda contribui para a evolução da humanidade. E andando sempre de mãos dadas com as práticas medicinais, o conhecimento sobre a natureza foi um grande aliado do ser humano na busca pela cura de doenças e em processos naturais, como o parto. Existem duas versões da origem da medicina. Segundo os países xiitas, a medicina surgiu no Império Aquemênida e segundo a tradição ocidental, Hipócrates é considerado o pai da medicina. Considera-se que viveu entre 460 e 377 a.C., deixando um legado ético e moral válido até hoje. Precursor do pensamento científico, procurava detalhes nas doenças de seus pacientes para chegar a um diagnóstico, utilizando explicações sobrenaturais, devido à limitação do conhecimento da época. Ainda antes da era cristã, Asclepíades de Bitínia tentou conciliar o atomismo de Leucipo e Demócrito com a prática médica. No primeiro século da era cristã, Cláudio Galeno, médico grego, deu contribuições substanciais (baseado em dissecções de animais) para o desenvolvimento da medicina.

Porém, na Idade Média, a igreja católica assumiu o controle da arte de curar através de medicamentos e deixaram para os barbeiros-cirurgiões, que já lidavam com a navalha, a realização de sangrias, supostamente eficazes na cura de doenças, e também de amputações nos campos de batalha, em uma época em que não havia anestesia. Juntando essa limitação imposta pela Igreja, ao patriarcado e o conservadorismo, a medicina se tornou uma prática restrita, onde apenas homens podiam exercer, com a condição de submissão ao alto clero. De repente, mulheres casadas ou solteiras, que viviam nos campos e praticavam a medicina adquirida por conhecimento experimental, passado de geração para geração, se tornam inimigas da Igreja e alvos perseguições. Parteiras e curandeiras, que usavam única e exclusivamente de práticas naturais, foram queimadas e torturadas como “vilãs”.

(…) A condenação de mulheres por imaginarem que, durante a noite, saem a cavalgar em bestas com Diana e Herodias. Contudo, porque semelhantes fenômenos acontecem muitas vezes por ilusão, quer dizer, se passam na imaginação simplesmente, não há de ser mera ilusão todo o efeito das bruxarias, não há de se dar na imaginação tão somente, e as pessoas que assim pensam estão muitíssimos enganadas. E enganadas estão as que creem estar só em Deus, Criador de todas as coisas, o poder de transformar as criaturas em melhores ou piores, ou de transformá-las em outra espécie ou aspecto. Pois são esses os infiéis, esses, sim, piores que os pagãos, porquanto professam que se tal transformação ocorreu, não há de ter sido por bruxaria, porque se fosse, dizem, não havia de ser real, mas pura fantasia. (…) A Lei Divina determina, em muitas passagens, que as bruxas não só devem ser evitadas, mas também condenadas à morte, embora só devam receber essa punição extrema se tiverem de fato pactuado com o diabo a fim de causar males e injustiças verdadeiros. Entretanto, a pena de morte não pode ser prescrita senão por crimes graves e notórios; o que se faz no mais das vezes e infligir a pena de morte da alma – ora pela força de alguma ilusão fantástica, ora pela força opressiva das tentações. (…) Que as bruxas parteiras matam, de várias maneiras, o concebido no útero e provocam o aborto; e quando não o fazem, ofertam as crianças recém-nascidas aos demônios. (…) Sem o auxílio do demônio, qualquer homem é capaz, por meios naturais – pelo uso de ervas ou de outro emenagogos-, de impedir a concepção mulheres, como já mencionou antes. Mas como outros dois métodos é diferente, são praticadas por bruxas. Não há necessidade de apontar os argumentos: basta mostrar exemplos evidentíssimos que fazem aflorar mais prontamente a verdade a respeito.

 “Trechos do Malleus Maleficarum, Manual escrito em 1484 pelos inquisidores”

O matriarcado, anulado pelo cristianismo, permanece vivo através dos ensinamentos das raizeiras e parteiras mais experientes. As bruxas do século 21 contestam toda uma lógica baseada no puritanismo e em métodos desenvolvidos por homens brancos. “Eu fiz um curso de endermoterapia com a Dona Flor, uma mulher negra, quilombola e internacionalmente conhecida. Senti uma conexão muito forte com ela, e foi daí que me tornei sua aprendiz. Ser uma raizeira é participar da rotina e estar sempre junto, porque o aprendizado da tradição é o que vem sendo compartilhado pelas gerações através da oralidade, são conhecimentos que não são registrados em livros, você aprende pela vivência” afirma Thais.

Thais Memo, parteira e raizeira na Chapada dos Veadeiros, repassa informações sobre saúde feminina em seu Instagram. Com mais de 30 mil seguidores, a parteira desconstrói conceitos através de posts que falam sobre como o padrão de beleza pode causar traumas, tratamentos para infecção vaginal, genecologia natural, percepção de fertilidade, etc. “Se você conhece sua fisiologia, o seu ciclo menstrual e está ciente do que acontece com seu copo, você tem mais autonomia, se liberta do uso indiscriminado de remédios e cria certa independência da medicina tradicional, que, na maioria das vezes, é dominada por homens brancos” afirma a raizeira. Além disso, para ela, a visão do físico dissociado do emocional, do mental e do contexto histórico, é uma visão da medicina convencional, nos saberes tradicionais está tudo interligado. “É muito comum mulheres com infecção vaginal terem problemas no relacionamento. Esse problema emocional reflete em uma candidíase recorrente. Não é uma regra, mas um padrão muito comum de se encontrar” conclui a parteira.

Em uma das suas publicações, Thais Memo afirma: “A cólica menstrual é uma invenção. Não da sua cabeça e do seu corpo, sei que o que você sente é real e eu também já senti. Quando digo invenção é porque ela foi construída. Cólica não faz parte da menstruarão, é possível sangrar sem sentir dor. Você só não sabe disso ainda”. Buscar a cura através do conhecimento do corpo e dos métodos naturais, contesta a indústria farmacêutica, que vende a menstruação como um problema que só pode ser solucionado através da compra de seus produtos. A sociedade patriarcal que negligência a dor e agride o corpo feminino, coloca em risco a vida e a saúde da mulher. “Eu tenho alergia a dipirona e uma vez estava no trabalho com muita cólica, devido ao meu ovário policístico. Como não dava para ir para casa, tomei um remédio qualquer que me deram. Tive uma reação alérgica terrível e fui parar no pronto socorro” afirma Renata Matias, copyright em uma agência de marketing.

Desde a expansão do cristianismo, as mulheres são culpas pelo próprio sofrimento.  “Multiplicarei grandemente a tua dor e a tua concepção; com dor darás à luz filhos…” (Gênesis 3:16). Essa passagem bíblica diz que a dor do parto é um castigo imposto as mulheres por Deus, devido a desobediência de Eva aos mandamentos sagrados. Aqui a competitividade feminina é reforçada, levando a compreensão de que a desgraça sobre o corpo feminino foi causada por outra mulher. Esse pensamento é uma característica das religiões monoteístas, visto que, nas sociedades politeístas, as mulheres eram sagradas, ora por carregarem dom da fertilidade, ora por terem em sua religião representatividades femininas.

Se antes os senhores feudais precisavam eliminar a existência feminina e o seu potencial de transformar o mundo, para que o sistema que os privilegia continuasse existindo, hoje, o capitalismo explora e se apropria da pauta feminista e do corpo para deslegitimar e colocar a mulher como pária na sociedade. A existência da mulher é um ato de resistência. A história está em débito com todas, mas, principalmente, com as mulheres negras que, na maioria das vezes, são as que conservam a tradição de parteira, raizeira e o conhecimento das ervas medicinais.

Marielle Franco – sociólogo e política brasileira, ex-vereadora pelo estado do RJ, assassinada

Todas as mulheres são bruxas, porque todas possuem saberes matriarcais, conhecimento, história de luta e resistência. É impossível repensar uma sociedade, sem abolir dos costumes o puritanismo dos inquisidores modernos. As “mulheres orgásticas” movem o mundo. “Essa reinserção do feminino na história, resgatando o prazer, a solidariedade, a não competição, e a união com a natureza, talvez seja a única chance que a nossa espécie tenha de continuar viva” Rose Marie Muraro, escritora do livro O Martelo das Feiticeiras.

*Júlia Barros e Gabriela Rodrigues são estudantes de Jornalismo da PUC – GO