Em algumas culturas, os funerais deixam a morte de lado e celebram a vida

A morte é um tópico que muitas pessoas não gostam de abordar. A tristeza de perder um ente querido faz com que essa etapa inevitável da vida seja uma espécie de tabu.

Em funerais e enterros, o mais comum é encontrar uma atmosfera melancólica, soturna e mórbida.

No entanto, esse padrão não é seguido por todas as culturas. Para alguns povos, um funeral não é a lamentação pela morte, mas, sim, a celebração de uma vida que cumpriu o seu papel na Terra.

Diante disso, as cerimônias fúnebres não são tomadas por choro e lástimas. Como verdadeiras festas, esses funerais têm música, dança e muita comida – mas nunca perdendo o tom emocional e carinhoso de dizer adeus a quem se ama.

1 – Uganda

Uganda, na África Ocidental, é um país com uma mistura muito grande de culturas. Oficialmente, existem cerca de 30 línguas indígenas diferentes, todas pertencentes a, pelo menos, cinco grupos linguísticos.

Essa mistura faz com que haja vários costumes dentro de um mesmo território. Embora os funerais “convencionais” também estejam presentes – já que há uma predominância cristã sobre a população –, alguns povos tomam o caminho contrário.

Em certas comunidades, os ritos funerários são adotados apenas pelos nobres, homenageando todos os aspectos da vida, como o humor e o sexo.

Apesar disso, muitas tribos ugandesas fazem festas para celebrar a vida do morto. É o caso do povo Acholi, um grupo étnico que vive no norte do país, já no sul do Sudão.

O funeral é baseado no dia em que a morte é colocada para fora e o espírito do falecido é trazido de volta. Todos os conhecidos são convidados, entre família e amigos. A festa costuma durar dois dias (sem pausas), com danças, comidas e álcool.

2 – Gana

Outro país africano que segue rituais fúnebres diferentes é Gana.

Em 2020, um vídeo se tornou viral na internet, o chamado “meme do caixão”. Nas imagens, homens uniformizados carregam um caixão nos ombros enquanto fazem passos de dança. Na edição, há uma música do gênero eletrônico no fundo.

Montagens, imagens estáticas, variações do vídeo e figurinhas do WhatsApp rapidamente se espalharam nas redes sociais. Mas o que foi surpresa e graça para os brasileiros, é uma tradição dos ganenses.

O vídeo original é uma reportagem da BBC News, feita em 2017, que retrata justamente sobre a celebração fúnebre de Gana, que enxerga a morte com olhos mais otimistas.

Embora seja uma prática comum, nem todos os ganeses fazem isso. O serviço é mais comum em funerais de famílias ricas, que têm condições para contratar os “carregadores de caixão” para realizar o ritual. A intenção é celebrar a vida da pessoa que se foi, e não focar apenas no infortúnio de sua morte.

Descendentes ganeses e imigrantes levaram a prática para outros países, como os Estados Unidos. Em Nova York, por exemplo, há uma taxa considerável de funerais que seguem as tradições de Gana.

3 – Taiwan

Alguns povos de Taiwan, que vivem em zonas rurais, têm funerais bem diferentes: música alta, gritaria e dançarinas exóticas.

Há quem diga que a presença de strippers serve para atrair mais pessoas, o que pode ser interpretado como um sinal de honra para o falecido – ter uma multidão em seu funeral.

Também existem relatos de que as danças de cunho sexual representam o desejo do falecido de ter sido abençoado com muitos filhos durante a vida.

Os mais ricos ainda contratam cantores, atores e comediantes para entreter os convidados e mandar a tristeza embora.

4 – Irlanda

A Irlanda é dona de alguns rituais fúnebres. No século XIX, com o desenvolvimento das cidades modernas, as mulheres cuidavam dos cadáveres. Elas os vestiam com suas melhores roupas e os colocavam no cômodo principal de suas casas, cercados por velas.

Os corpos eram envoltos por uma mortalha e decorados com laços e flores. Como o funeral durava alguns dias, o falecido nunca era deixado sozinho. Os homens sempre ficavam ao redor do caixão, conversando, fumando e afugentando espíritos malignos.

A tradição irlandesa também tem o costume de parar os relógios na hora da morte, abrir as janelas e cobrir os espelhos para que a alma dos mortos não fique presa.

Apesar do tom mórbido, os funerais irlandeses sempre tiveram a noção de celebrar a vida do ente querido, encorajando-o a ir para o outro plano em paz.

Hoje, muitos funerais acontecem em pubs – especialmente em áreas mais afastadas dos centros urbanos –, com muita música ao vivo, comida, cerveja, whisky, riso e histórias felizes. A intenção é brindar as boas memórias do falecido.

5 – México

Os mexicanos tratam a morte com tanta naturalidade que o Día de los muertos, o feriado que celebra aqueles que já se foram, virou até filme da Disney. Viva – A Vida é Uma Festa é uma animação colorida, calorosa e vencedora de um Oscar.

O dia de finados do México é a data mais importante do país. Na crença mexicana, o feriado marca o único dia em que os parentes mortos podem voltar à Terra para visitar a família.

Por isso, altares com flores, fotos e comidas são preparados nas casas. Nas ruas, festas com danças e roupas típicas são obrigatórias, com a figura das caveiras coloridas e a famosa La Catrina como elementos principais.

A festança colorida é feita para que as pessoas possam receber seus entes queridos de forma especial, oferecendo apenas experiências alegres e cheias de amor.

Independente da forma como a cerimônia ocorreu, o fato é que a morte de um ente querido é um momento de no mínimo muita reflexão por sua perda. Aqui no Brasil, ainda comemoramos de uma forma mais ortodoxa, com o envio de coroa de flores em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba ou em qualquer outro canto. No entanto, como vimos acima, existem outras formas de celebrar a partida de alguém, inclusive com festas. O mais importante é honrar a memória de quem partiu, o seu legado.